26 de janeiro de 2013

Vitamina D e cancro da mama



Nos últimos tempos tem sido feita tanta investigação com a vitamina D e cancro da mama que é difícil acompanhar. Na passada semana foram pelo menos mais dois.

Num dos trabalhos, foram encontrados menores níveis de Vitamina D (25OH) nos 90 dias prévios ao diagnóstico de cancro da mama em mulheres pré-menopausa. Apesar de existirem vários estudos a apontar para uma relação entre os níveis baixos de Vitamina D e cancro da mama, essa associação nem sempre é evidente a longo prazo. Uma vez que os últimos 3 meses são críticos para o desenvolvimento do tumor, um período marcado por uma angiogénese massiva (vascularização do tumor), é provável que seja nesta janela que a relação se torne mais evidente, embora os mecanismos não sejam ainda de todo claros.

Ora, o outro trabalho que vos falei vai precisamente nesse sentido. Uma equipa de investigadores da Universidade de Saint Loius dá o seu contributo à questão e esclarece, in vitro, uma possível via protectora da Vitamina D nas neoplasias mamárias.


Os tumores não são todos iguais e uns são mais perigosos que outros. Os chamados triplo-negativos têm especialmente mau prognóstico e caracterizam-se pela ausência dos marcadores convencionais ER (receptor de estrogénios), PR (receptor de progesterona), e HER2, tornando-os resistentes à terapia hormonal. Alguns polimorfismos e mutações genéticas em BRCA1 estão associadas a um maior risco de cancro da mama. Este gene é um supressor tumoral e a sua perda de função leva a grande instabilidade genómica. A acumulação de danos ao DNA leva ao risco elevado de neoplasias, e particularmente aos triplo-negativos de pior prognóstico.

A disfunção de BRCA1 está normalmente associada à perda de um outro factor de reparação do DNA, o 53BP1. A equipa mostra que a quando o gene BRCA1 não funciona devidamente, à induzida uma enzima proteolítica chamada catepsina L. Esta enzima por sua vez procede à destruição do 53BP1, aumentando assim a dano ao DNA da célula e o risco de desenvolver um tumor.

E onde entra a vitamina D aqui? A vitamina D inibe precisamente a catepsina L e restaura os níveis normais de 53BP1. Além disso, a vitamina D parece restaurada a sensibilidade ao tratamento com inibidores da PARP, drogas estas que induzem a destruição de células altamente proliferativas como as tumorais. 

Mas a equipa faz mais uma descoberta extremamente interessante. Níveis elevados de catepsina L e baixos de 53BP1 e VDR (receptor nuclear da vitamina D) são marcadores que identificam grande parte os triplo-negativos. Daqui será eventualmente possível no futuro identificar os pacientes que beneficiarão mais de uma terapia adjuvante com vitamina D.

O interesse da comunidade científica pela vitamina D cresce exponencialmente. Sabemos que existe uma carência crónica nas sociedades modernas e cada vez mais a suplementação é recomendada. Eu também vou por essa linha. Segundo as novas directrizes, o nível de 25-hidroxivitamina D no sangue deve situar-se idealmente acima dos 50 ng/dL. Apesar de vivermos num país cheio de Sol, grande parte das pessoas nem chega lá perto. Isto terá necessariamente a ver com os nossos hábitos de exposição e do uso indiscriminado de protectores (com as suas justificações). Apesar de eu ser muito crítico em relação a estes valores de referência que nem sempre reflectem as nossas necessidades individuais, considero que o doseamento deve ser feito e, se necessário, proceder à suplementação da dieta com vitamina D3.



1 comentário:

  1. Bem haja a toda a comunidade científica! A vida dos que padecem de doença oncológica, bem como de entes queridos que os rodeiam e apoiam, anseia pelo vosso empenho e dedicação!

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