2 de Março de 2013

O que o crossfit pode fazer por si? - Parte 2


O meu artigo de ontem sobre o crossfit gerou bastante interesse entre os leitores e tivemos comentários muito ricos, os quais vos convido desde já a ler. Um em particular, do meu amigo José Vilaça, perito em exercício e professor no UTAD, merece ser destacado como o 2º guest post do Fat New World.



Por José Vilaça,

Eu como especialista, não no cross-fit, mas no treino, quer ele seja desportivo ou com outros fins (saúde, estéticos, etc), e na investigação científica, principalmente relacionada com o Treino de Força vou, após ler atentamente o teu post e o artigo referido, dar a minha humilde opinião.

1º - É de salutar a procura pelo conhecimento científico, relacionado com o Cross-Fit, por parte dos autores do artigo "Crossfit-based high intensity power training improves maximal aerobic fitness and body composition", e espero eu próprio e outros pesquisadores lhes sigam os passos;

2º - O Cross-Fit pode ser visto de duas formas distintas: como desporto; ou como metodologia de treino. Esta diferenciação é muito importante, porque:

i) enquanto modalidade desportiva, o objectivo é efectuar as competições e ser o melhor nos objectivos propostos. Contudo, muitos se esquecem do necessário para a preparação desportiva e para uma competição. Antes de chegar ao período competitivo, tem-se o período preparatório Geral e o período preparatório específico. No período preparatório geral o objectivo é dar bases ("alicerces") ao organismo para os desafios que lhes vão ser propostos, principalmente os do treino para a competição. Portanto nessa fase deve-se efectuar uma adaptação articular, muscular, tendinosa e cardiorespiratória ao treino. No período preparatório específico, ensinar e desenvolver as bases da modalidade. Como referiu o Hugo Castro, aprender a efectuar as técnicas dos levantamentos de peso olímpicos, os gestos gímnicos e afins que vai ser solicitado na competição e aumentar a performance nessas actividades. Por fim, no período competitivo desenvolver e preparar os atletas para chegarem à competição na sua forma desportiva possível. Portanto, para ser especíalista deste Desporto, tal como dos outros têm-se que ter conhecimento de Treino Desportivo, Fisiologia, Biomecânica, psicologia, prevenção de lesões e psicologia. Não me parece que conhecer o principio da variabilidade e deixar de parte o do tempo optimo de descanso, da progressão da carga e do planeamento, bem como todos os princípios biológicos, metodológicos e pedagógicos do treino desportivo, seja uma boa opção para quem quer ser treinador desta modalidade.

ii) enquanto metodologia de treino, temos muito que discutir e este estudo, embora com algumas debilidades, trás ao conhecimento alguns dos problemas do Cross-FIt, tal e qual ele é apresentado. Como eu já afirmei num dos posts do Sérgio, quem quer difundir esta modalidade ou método de treino, tem que ter cuidado com que afirma e como afirma. Custa-me ver o Cross-Fit rodeado por um marketing agressivo ou com uma defesa apaixonada. Enquanto a paixão eu compreenda e até aceito, pois é um sentimento irracional e de difícil de explicação, o marketing selvagem e sem principios, não o aceito e acho deplorável. A realidade é que a maioria dos profissionais utiliza unicamente todos os dias uma variedade de movimentos em explosividade, retirados do powerlifting, movimentos gimnicos e uma metodologia de treino em circuito. Se observamos vem os WOD e mesmo o do artigo, os movimentos solicitam quase sempre os mesmos grupos musculares e são efectuados em potência. Tal como constata o estudo, existe uma tendencia, tal como o treino é idealizado, em provocar lesão, 16% da amostra não concluiu o programa de treino, que não era tão longo quanto isso (10 semanas). A fadiga central e periférica, provocada por este tipo de treino, pode potenciar, em pessoas mal treinadas e mesmo naqueles bem treinados, que não fazem equilibrio muscular, podem potenciar lesões musculares e articulares na pratica de movimentos balísticos e explosivos praticados no Cross-Fit. A repetição constante dos mesmos gestos, levam a desequilíbrios musculares e consequentes lesões por excesso de uso. Portanto julgo que a metodologia de treino deve ser pensada e reflectida e mais estudos são precisos para detectar a melhor forma de a efectuar.

3 - quanto ao estudo. Este revela que existe um aumento do VO2max com o treino de alta intensidade. Esse é um aspecto já reconhecido pela ciência. O treino de alta intensidade e intervalado é superior no aumento do VO2max do que o treino continuo e de moderada intensidade. Portanto, julgo que uma das falhas do estudo é a falta de um grupo de controle ou que executasse outra metodologia de treino, ou modalidade, que também tenha como objectivo o desenvolvimento dessa variável. Igualmente, quanto à perca de massa gorda, a inexistência desse grupo ou grupos de comparação é uma das limitações do estudo. Outra limitação quanto à composição corporal é o método de avaliação que não é o mais apropiado e fiável. Estudos futuros deviam utilizar o DEXA. Igualmente, embora no estudo diga que os sujeitos efectuavam a dieta paleo antes e durante o estudo, essa dieta não está bem definida e se já a faziam antes como é que a sua percentagem de gordura corporal já era elevada, principalmente nos do sexo masculino. Portanto, ficamos sem saber se a redução na percentagem de gordura corporal tem haver com a dieta, com o treino ou com a combinação de ambos.

Para finalizar, embora haja muito mais para dizer, parece que eu sou contra o Cross-Fit. Mas não, eu adoro o Cross-Fit, acho uma modalidade interessante e motivadora, embora para passar a metodologia de treino precise ser melhor pensada e estudada. Portanto, Parabéns aos autores do estudo, ao Sérgio e a todos aqueles que procuram com esforço, trabalho, dedicação e honestidade desenvolver o mundo do fitness.

Fica uma sugestão, porquê que em vez de se fazer WOD diários não se faz uma competição semanal!

6 comentários:

  1. Olá Sérgio e José Vilaça,

    O tema é muito pertinente. Eu costumo treinar muitos dos movimentos apregoados pelo CrossFit, sou especialista em performance, ou seja, ponho literalmente as maos na massa, mas ainda nao sei se de facto existe uma metodologia de treino específica associada ao CrossFit (quem poderia falar disso sao os instrutores certificados e se por acaso existe aqui algum, seria bom que nos esclarecesse nesse sentido), nem sei se já é considerado uma modalidade desportiva, tal como o futebol ou o andebol (se bem que isto nao seja particularmente importante para as questoes de fundo que estamos a debater).

    Queria partilhar convosco o post que escrevi ontem sobre isto:

    http://pedrocorreiatraining.wordpress.com/

    E rectificar algumas imprecisoes no post acima:

    1) Os movimentos explosivos (snatch, clean, jerk) nao sao retirados do powerlifting mas antes do levantamento olímpico ou halterofilismo. Sao duas modalidades diferentes.

    2) O treino em circuito nao é uma metodologia de treino, mas uma forma de organizaçao da sessao de treino. Ou seja, o treino em circuito, quanto muito, pode fazer parte da metodologia utilizada no processo de treino.

    Obrigado pela vossa atençao.

    Pedro Correia

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  2. Caro Pedro Correia

    1) Na realidade o powerlifting não utiliza os exercícios snatch, clean e jerk, mas sim o agachamento, o supino e o peso morto, ou levantamento de terra. Mas a minha imprecisão não essa. Eu disse que usavam movimentos variados tirados do powerlifting e devia ter acrescentado " também do levantamento de peso olímpico. Pois os exercícios de agachamento, supino e peso morto, também são usados no Cross-Fit. Quanto ao Halterofilismo, que tem como origem o culto do uso do halter, ou o desporto que utiliza Halteres ou barras, já está em desuso! Mas, admito que também possa ser usado.

    2) quanto à segunda imprecisão por ti referida. Não concordo mesmo nada: i) metodologia é o processo pelo qual nós procuramos atingir um objectivo. Portanto, eu uso a metodologia de treino em circuito para atingir determinado resultado (aumento do VO2max, maior dispêndio energético, etc). Agora, impreciso é chamar Treino em circuito, pois treino é um processo constituido por um conjunto de procedimentos (podendo eles serem a ordem dos exercícios, a carga, o número de séries, o tempo de descanso entre séries, etc) para atingir, igualmente um fim, que no caso do treino desportivo a melhor performance possível. Portanto a metodologia de treino em circuito é uma metodologia que tem como base a ordem dos exercícios e não um treino. Para lhe considerar treino deveria ser definido as outras variáveis.

    3 - Embora digas que considerar o Cross-Fit um Desporto, ou não, não é importante, discordo! Antigamente, só era considerado Desporto a actividade física que tivesse quadro competitivo, uma federação e calendário competitivo. Neste momento, tendo em conta o livro branco da comissão europeia para o Desporto, este é englobado em todo tipo de actividade física e exercício físico, quer ele seja competitivo ou de lazer. Eu contínuo a achar que desporto é quando há competição, seja profissional ou amadora. E acho um aspecto importante, pois na competição o que interessa é competir . Se essa competição proporciona lesões, como todas proporcionam, não interessa! Pois, o principal objectivo é ganhar (fazer a tarefa em menor tempo, levantar mais vezes uma determinada carga, levantar maior carga num determinado movimento, etc). Se for uma metodologia de treino, então teremos que observar o custo benefício dessa metodologia, como das outras todas.

    Pedro, senti, embora possa ter interpretado mal, alguma necessidade de afirmares que és da prática e não um teórico. Embora eu seja professor universitário, tenho 21 anos de experiência prática na área do fitness e nunca vi incompatibilidade entre a visão científica e a visão prática. Pelo contrário, acho que as duas se complementam.

    Obrigado pela tua entrada na discussão! Pois, é da reflexão e da troca de ponto de vista e conhecimento que se evolui!

    Um Forte Abraço

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    1. Caro José Vilaça,

      Obrigado pela resposta, acho que estamos de acordo naquilo que é fundamental.

      Em relaçao à metodologia, eu entendo como os diferentes aspectos trabalhados ao longo da sessao de treino, isto é, a ordenaçao no treino dos aspectos que se pretendem trabalhar (exemplo massagem miofascial, mobilidade, alongamentos dinânmicos, ativaçao do core, potência, força, desenvolvimento dos sistemas de energia) para criar as adaptaçoes que se pretende. Agora se a disposiçao de cada um desses elementos é efetuada em circuito, séries normais, super-séries, etc, isso tem a ver com a organizaçao da sessao de treino nesse dia, que, por sua vez, faz parte também da metodologia utilizada. Espero que me tenha feito entender.

      Eu nao sou da prática, nem da teoria, sou de ambos porque só assim é que faz sentido fazer as coisas. A experiência prática tem pouco significado se não for colocada em contexto com o conhecimento científico, e, da mesma maneira, a ciência por si só não vale de muito sem a experiência necessária para entender como as coisas funcionam na prática.

      Um abraço,

      Pedro Correia

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  3. Sr José Vilaça escreveu:

    "..Quanto ao Halterofilismo, que tem como origem o culto do uso do halter, ou o desporto que utiliza Halteres ou barras, já está em desuso! Mas, admito que também possa ser usado..."

    Refere-se á modalidade em si ou á utilização dos movimentos?? O halterofilismo é um desporto Olímpico,infelizmente no nosso país as ditas modalidades amadoras são preteridas já se sabe,pelo futebol.Existe ainda um núcleo de atletas veteranos que ainda mantêm viva a prática da modalidade e que competem com excelentes resultados no estrangeiro.
    O Halterofilismo nos EUA,por exemplo,está a benificiar e muito da inclusão dos seus movimentos nos wod's do Crossfit,basta ver o aumento do numero de praticantes inscritos na USAWA,desde que começaram as competições de Crossfit e que aumentou a ncessidade de formação dos atletas.
    Quanto á forma como os movimentos são utilizados,é completamente contrária á metodologia do treino de Halterofilsimo mas os objectivos são também diferentes.

    Cumprimentos,

    Helder Castro

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    1. Helder

      Por favor, leia o contexto da frase! Eu não disse que os movimentos usados no Halterofilismo estão em desuso! O que eu disse foi que o termo Halterofilismo é que está em desuso! Agora, utiliza-se a denominação Levantamento de Peso Olímpico! E tal como refere é modalidade Olímpica!
      Quanto ao uso do arranque e do arremesso, não é só utilizado no Cross-Fit. É utilizado por todos os treinadores em metodologias de treino que têm como objectivo a melhoria da explosividade e/ou potência.

      Cumprimentos

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  4. Só hoje é que li a 2ª parte do artigo, ou seja, o artigo do José Vilaça. Só posso dizer que não podia concordar mais com a sua opinião.

    O Crossfit enquanto modalidade desportiva pode realmente oferecer uma alternativa saudável, diferente e motivadora ao público em geral. Já como método de treino tenho as minhas dúvidas (tal como o José) porque a aleatoriedade dos Wods (que obedecem apenas a certos padrões) faz com que seja muito dificil (só não é impossivel porque as pessoas que têm algum background em treino antes de Crossfit conseguem de facto desenvolver um programa) prever alguma programação. Eles obedecem mais ou menos a: A+AB+ABC+descanso, começando na letra seguinte ao 5º dia e continuam por aí. Isto tudo para dizer onde concordo consigo.

    Onde é que eu não concordo: no facto de afirmarem que 16% é uma percentagem alta de lesionados. Claro que é, mas estaríamos a assumir que nenhuma dessas pessoas tinha problemas de raiz nº1 (o estudo em nada indica que as "cobaias" fossem pessoas que já treinavam). nº2 muitas destas lesões resultam da competitividade associada ao Crossfit, as pessoas não se conseguem conter e acabam por fazer os movimentos de modo errado, demasiado rápido e com cargas que muitas vezes não estão preparadas para tal, aqui podemos culpar as duas partes. As pessoas porque não se sabem refrear e os treinadores porque não têm mão nos clientes.

    Fora isso, tomara eu saber tanto de treino como o José. Obrigado

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