10 de março de 2013

Um olhar sobre os suplementos para emagrecer


Aproveitando a minha intervenção recente num seminário promovido pelo Ginásio Clube Português, e cujos slides coloquei para download, quero agora partilhar convosco uma revisão superficial  ao mercado de suplementos para emagrecer. Que melhor altura do que com a Primavera a bater à porta? Para não tornar o texto massudo e longo (e já vão ver do que falo...), vou dividi-lo por partes em que farei uma breve análise e crítica à evidência científica para os compostos mais comuns. Tentarei também mostrar porque não podemos assumir a grande maioria dos estudos como verdadeiros e porque temos razões para acreditar que muita da dita evidência é de facto falsa. Mas antes da cereja vamos fazer o bolo. Começarei por vos falar um pouco da história dos suplementos para emagrecer e de como este monstro nasceu entre nós. Abordarei agora também alguns compostos que hoje se restringem ao mercado ilegal, mas nem por isso menos usados entre os entusiastas do fitness.


Para endender o fenómeno dos supplementos alimentares devemos ter presente a dinâmica do mercado. E é um mercado bilionário que daqui a poucos anos atingirá perto de 250 biliões de euros anuais no Mundo. Os EUA são líderes destacados, seguidos da Europa Ocidental e do Japão. Na Europa, a Alemanha, França e Reino Unido são os pólos mais importantes. Em Portugal o mercado tem crescido, embora não seja fácil encontrar estatísticas fidedignas da sua evolução. Ao que parece tem havido uma ligeira quebra desde 2009, o que provavelmente se deve à crise económica que vivemos. Mas para além dos países ditos desenvolvidos, os mercados emergentes têm verificado um crescimento galopante, em particular a China e a Índia. Alguns analistas estimam mesmo que os suplementos alimentares sejam o mercado com maior crescimento no Mundo para os próximos 5 anos. Só nos EUA, país em que quase 90% da população toma algum tipo de suplemento ou alimento funcional, os produtos para perda de peso representam já um negócio superior a 60 biliões de USD anuais. É óbvia a necessidade de produzir ciência que justifique e alimente este monstro. Mas quando a pressão é grande, a qualidade, rigor, e até a honestidade são muitas vezes atropeladas em prol do interesse económico e da necessidade doentia dos investigadores em fabricar publicações em série como uma prova do seu valor. Lá iremos...

A primeira documentação histórica conhecida remonta ao séc. II AC. Um famoso médico ginecologista de Alexandria, Soranus de Ephesus, recomendava algumas ervas e infusões laxantes para perda de peso. O seu método baseava-se também no exercício, massagens e calor. Esta abordagem permaneceu até ao início do séc. XX.

Nos anos 20 do século passado começou a ser usada a tiróide de porco dissecada para tratar a obesidade, mesmo em pessoas com a função normal da glândula. O efeito destas hormonas era já conhecido no tratamento do hipotiroidismo. Alguns sintomas adversos eram observados, tais como palpitações, taquicárdia e insónias. As hormonas da tiróide são também altamente catabólicas para o tecido muscular. A utilização de T3 e T4 é ainda relativamente comum entre os praticantes de cultura física, que utilizam esteróides e hormona do crescimento para atenuar o efeito catabólico destas substâncias. 

Em 1933 foi introduzida no mercado uma substância muito interessante: o 2,4-dinitrofenol, conhecido como DNP. O DNP é um químico utilizado no fabrico de pesticidas e explosivos, ideal portanto para perder peso. Segundo consta, o seu efeito foi descoberto precisamente numa fábrica de explosivas em que, misteriosamente, os trabalhadores estavam a perder bastante peso. O fenómeno foi então atribuído ao DNP. No entanto, a sua passagem pelo mercado foi bastante breve, tendo sido retirado apenas 5 anos depois.

Como funciona o DNP? O DNP é um desacoplador da fosforilação oxidativa que ocorre nas mitocondrias para produzir ATP, a nossa forma de energia biologicamente útil. Imaginem a mitocondria como uma pilha, em que existe um excesso de cargas + num dos lados de uma membrana que lhes é impermeável. Estas cargas vêm dos alimentos que comemos e são bombeadas contra um gradiente de concentração. Quando estas cargas passam para o outro lado, ou seja, quando a diferença de potencial tende para 0, produz-se energia. E tal como uma pilha, quando as cargas são iguais em ambos os pólos não se produz mais energia: a pilha está gasta. A passagem destas cargas através da membrana impermeável é feita através de uma proteína, a ATP sintase, que utiliza essa energia para produzir ATP. O que o DNP faz, de uma forma muito simplista, é como que criar buracos nessa membrana que permitem às cargas fluir livremente entre os lados sem passar pela ATP sintase. A energia dissipa-se então sob a forma de calor e não é conservada em ATP. O processo de produção de energia torna-se muito menos eficiente e precisamos de muitas mais calorias para produzir a mesma quantidade de ATP. E quando falo em calor, é muito calor. Temperaturas basais de 40 ºC não são raras em quem utiliza esta substância para perder peso. 

É de esperar portante que se trate de uma substância muito perigosa. Por essa razão foi retirada do mercado em pouco tempo, há quase 80 anos. Mas não é por isso que deixa de ser usada. O Correio da Manhã (quem mais) publicou recentemente uma notícia que dava conta da morte de um rapaz indiano, residente no Reino Unido, devido à utilização de DNP. Foi apenas há 2 meses. Algumas outras mortes têm sido atribuídas a esta substância muito perigosa e que desafia a própria vida pelo desejo de perder gordura sem esforço.

Depois do DNP veio o reinado das anfetaminas, substâncias com um efeito anorexigénico bastante acentuado (supressores do apetite) e activador do sistema nervoso simpático. A fentermina foi introduzida no mercado em 1959 e em 1973 foi a vês da fenfluramina. A combinação destas duas drogas foi muito famosa nos anos que se seguiram com o "fen-fen", um "medicamento" bastante eficaz na perda de peso. A fenfluramina veio a ser substituída pela dexfenfluramina em 1996 por ter menos efeitos secundários a nível cardiovascular e psíquico. Mesmo assim, conhecido o elevado risco destas substâncias, as três foram banidas em 1997 e agora existem apenas no mercado negro.

Pela mesma altura, um outro composto anorexigénico surgiu no mercado: a sibutramina. A sibutramina é um inibidor da recaptação de neurotransmissores, nomeadamente da serotonina (53%), noradrenalina (54%) e dopamina (16%). Durante alguns anos foi em conjunto com o orlistato (Xenical), a terapia farmacológica aprovada para o tratamento da obesidade mórbida. Em 2010 saiu do mercado devido aos seus efeitos secundários bastante acentuados: hipertensão, taquicárdia, insónias, náuseas, boca seca, parestesia, entre outros. Hoje é uma das substâncias mais procuradas no mercado paralelo.

Mas existia um composto natural, extraído das plantas Ephedra sinica (ma huang) e Sida cordifolia, que acompanhou toda esta novela - a efedrina. A efedrina começou a ser usada ainda nos anos 30 para o tratamento da asma, tendo sido preterida em favor do seu parente pseudoefedrina com uma acção mais suave. Este último tem tido muito mediatismo devido à sua utilização para síntese de metanfetaminas. Mas durante muitos anos a efedrina foi vendida como suplemento alimentar, particularmente em combinação com cafeína e aspirina. O famoso ECA (de Efedrina, Cafeína e Aspirina). Produtos famosos como o antigo Ripped Fuel e Xenadrine tiravam partido desta conjugação.

A efedrina actua como um simpatomimético (activador do sistema nervoso simpático), activando os receptores beta2-adrenérgicos (agonista beta2-adrenérgico). A sua acção central induz saciedade e aumenta o metabolismo via sistema nervoso simpático (SNS). Além disso, o mecanismo de libertação de gordura pelo adipócito depende também destes receptores beta-adrenérgicos (beta-AR), fisiologicamente activados pela adrenalina e noradrenalina (NA) que respondem ao SNS. A ligação da NAD ao beta-AR conduz à activação de uma outra proteína, a adenilato ciclase. Esta, por sua vez, estimula a produção de cAMP que, por uma série de eventos sequenciais leva à activação da Hormone Sensitive Lipase (HSL) e libertação de ácidos gordos para a circulação. Estes ácidos gordos são então distribuídos aos tecidos, em particular aos músculos que os utilizam para produzir energia (um processo também estimulado pela efedrina). A efedrina actua estimulando o SNS a produzir NA e ela própria se ligando ao b-AR e estimulando desta forma a iniciação da cascata de eventos que leva à lipólise. 

Mas o organismo não é parvo e tem mecanismos contra-regulatórios de defesa. Um deles é a fosfodiesterase, uma enzima que degrada o cAMP e assim travando todo o processo que leva à lipólise. É aqui que entra a cafeína, um conhecido inibidor desta fosfodiesterase. Alem disso, ela parece também estimular o SNS a produzir NA. Os trabalhos que estudam o efeito da cafeína em isolado para perda de peso têm sido desanimadores. É reconhecido um efeito agudo mas que não se traduz numa perda de gordura significativa a longo prazo. Além disso, a sua acção parece perder potência em consumidores habituais de café. Não obstante, a cafeína tem sido usada com algum sucesso como ergogénio em vários desportos.

A aspirina, ou ácido acetilsalicílico, é o elo mais fraco da combinação. Aparece em alguns produtos como casca de salgueiro branco (white willow bark extract), rico em salicina. A lógica da sua acção sinérgica é um pouco obscura e alvo de muita especulação. Alguns dizem que serve apenas para aliviar as dores de cabeça causadas pela efedrina. Outros que é para fluidificar o sangue. Na verdade, a sua inclusão deve-se ao facto de ser um inibidor da COX-1, enzima responsável pela produção de prostaglandinas. Estas prostaglandinas parecem estimular a degradação da noradrenalina. Recordemos que a NA é o activador por natureza dos b-AR após activação do sistema nervoso simpático.

Um resumo dos mecanismos sinérgicos para a acção da efedrina, cafeína e aspirina.


Existem de facto estudos que comprovam a eficácia da efedrina, isolada ou em combinação. Uma meta-análise de 2003 diz-nos que, em média, podemos esperar deste composto uma perda de peso na ordem dos 900 g por mês. E adianto desde já que isto é o máximo que vão encontrar entre os suplementos. Uma meta-análise é uma análise estatística combinada dos vários estudos efectuados sobre um determinado assunto, na esperança de obter uma maior robustez nas conclusões, em grande parte pelo aumento do tamanho da amostra (agrega vários ensaios). Por outras palavras, uma tentativa de obviar a fraca potência estatística dos estudos individuais. Num outro artigo irei no entanto dar-vos algumas razões pelas quais eu não acredito na validade de muitos dos estudos incluídos nesta e noutras meta-análises a suplementos alimentares. Explicarei como a fraca qualidade metodológica, o efeito de pequenas amostras, os vieses de publicação e conflitos de interesse põem seriamente em causa a suposta evidência que dispomos para estes produtos. Quer seja para justificar a sua eficácia ou a sua inutilidade.

É importante também referir que não existem provas da eficácia da efedrina, e outros estimulantes aparentados, a longo prazo (mais de 6 meses). Na verdade podem até ser contraproducentes. O corpo responde a esta sobre-estimulação diminuindo a quantidade de beta-AR nas células. Torna-as mais insensíveis ao efeito da adrenalina, noradrenalina, e outros agonistas beta-adrenérgicos. Outro problema é a elevação crónica do cortisol com o uso prolongado de estimulantes que, a longo prazo, pode minar os esforços para perder peso.

Uma outra substância deste grupo muito usada em ginásios é o clenbuterol, mais potente e eficaz do que a efedrina mas com um mecanismo de acção muito similar. É do conhecimento empírico de quem usa esta substância que a sua acção se perde em cerca de 2 semanas. Isto deve-se precisamente à inibição defensiva que o organismo exerce aos beta-AR. Para driblar o problema, é muitas vezes administrado em conjunto o cetotifeno, uma substância que aumenta o número de receptores beta-adrenérgicos nas células e mantém o corpo sensível aos simpatomiméticos. Drogas para contornar o efeito de drogas, um ciclo vicioso sem fim e muito perigoso. O clenbuterol foi durante algum tempo utilizado farmacologicamente para o tratamento da asma, mas hoje está também restrito ao mercado negro e disponível apenas de forma ilegal.

Não tem de ser assim...


Aqueles fabulosos 900 g por mês que a efedrina parece proporcionar em média não vêm de borla. Muitos efeitos secundários lhe são reconhecidos, particularmente a nível cardiovascular e psicológico (psicose, hiperactividade autonómica, palpitações, taquicárdia, hipertensão, dores de cabeça, insónia, ansiedade, náuseas, vómitos, entre muitos de uma longa lista). Por esta razão, a efedrina foi banida do mercado em Abril de 2004. Representando apenas 1% do mercado de suplementos da altura, a efedrina foi responsável por 64% de todos os efeitos adversos reportados (cerca de 16 000 por si só). Pensa-se que tenha sido a causa directa de 5 mortes (mas indiciada por mais de 80), 5 ataques cardíacos e 11 acidentes vasculares cerebrais. Um curriculum impressionante.

A eficácia da efedrina e suas combinações era reconhecida e muito procurada entre os entusiastas do fitness. A sua proibição foi um rude golpe na indústria que se apressou a tentar encontrar alternativas legais. Uma delas foi a sinefrina, que se revelou um fiasco. Com ela entramos no mercado actual dos suplementos alimentares que irei abordar num outro artigo que se seguirá. Ficámos para já com um breve olhar sobre a evolução dos produtos para perda de peso. Infelizmente, ficamos também por aqui com os que realmente parecem ter um impacto significativo na composição corporal. Impacto esse com um custo substancial e risco para a saúde. 


3 comentários:

  1. Como sempre muito interessante e informativo! É só pena que não tenhas falado na hormona de crescimento e do seu forte efeito lipolítico.

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  2. Grande artigo, fico a aguardar pela segunda parte e ver que tens a dizer sobre as ketonas de Framboesa do Dr. Oz!

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    1. Já o fiz aqui: http://www.fat-new-world.com/2013/01/o-milagre-as-cetonas-de-framboesa.html

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