30 de abril de 2013

O chá verde na perda de peso e diabetes


O extracto de chá verde é um dos produtos mais utilizados para perda de peso, embora, tal como a maioria, a evidência para a sua eficácia seja mínima. Alguns estudos têm apontado também para um potencial terapêutico na diabetes. O chá verde, mais concretamente as epigalocatequinas-3-galato (EGCG) que contém, parecem inibir a enzima que digere os amidos, a amilase, diminuindo assim a velocidade a que a glicose chega à circulação. Mas o que sabemos realmente acerca do chá verde? Qual o seu impacto a nível da composição corporal e controlo da glicémia?


Uma meta-análise de 2009 aos estudos publicados com o chá verde para perda de peso revela de facto um efeito estatisticamente significativo. Questionável é o seu valor prático, já que o tamanho do efeito não excede os 1,3 Kg aos 3 meses. Além disso, os Asiáticos parecem beneficiar mais da utilização de chá verde para perda ou manutenção do peso do que os Ocidentais.

Vários mecanismos têm sido apontados para explicar o papel do chá verde na regulação do peso corporal. As EGCG são inibidores da COMT (catecol-O-metiltransferase), uma enzima responsável pela degradação das catecolaminas (adrenalina e noradrenalina), hormonas que estimulam a lipólise. Assim sendo, as EGCG do chá verde poderiam potenciar a acção das catecolaminas no tecido adiposo. Este efeito parece ser particularmente evidente no tecido adiposo visceral, mais sujeito à acção das catecolaminas, e sinérgico com o exercício físico. Além disso, há também indícios de uma inibição de enzimas lipogénicas e da lipase que digere a gordura alimentar. As doses utilizadas nos estudos variam entre 300-600 mg/d, o equivalente a 0,5-1 L de chá verde.

As EGCG parecem também inibir a digestão do amido quando ingeridas durante a refeição, evitando picos de glicémia e facilitando a gestão dos níveis de glicose no sangue. Estes mecanismos são particularmente interessantes em diabéticos e existem até fármacos que actuam no mesmo sentido - a arcabose, um inibidor das glicosilases (amilase). A quantidade necessária de chá verde para este efeito não parece muito alta e 1,5 chávenas de chá à refeição deverá ser suficiente. Convém no entanto sublinhar que se tratam de dados preliminares e extrapolações de estudos com animais.

Mas existe um problema. Concentrações elevadas de EGCG no sangue podem levar a resistência à insulina. O motivo não está ainda claro mas suspeito que tenha precisamente a ver com a maior actividade das catecolaminas, lipólise, ou inibição da secreção de insulina pela noradrenalina. Assim, atingir as doses necessárias para se verificar um efeito na perda de peso pode ter consequências menos desejáveis.

Vimos já que alguns dos efeitos do chá verde se manifestam ainda no tracto gastrointestinal - inibição de enzimas digestivas como a amilase ou as lipases. Embora as doses necessárias para um efeito sobre a última sejam impraticavelmente altas para Humanos, em relação à amilase não é bem assim. De qualquer forma, existe ainda o risco de piorar o controlo da glicemia por indução de resistência à insulina.

Uma equipa de investigadores coreana estudou a hipótese de que aumentar o tempo de permanência das EGCG no tracto gastrointestinal iria potenciar o efeito anti-hiperglicemiante sem consequências a nível da sensibilidade à insulina. Para tal, formularam um composto de EGCG com polietilenoglicol (PEG) cuja absorção no intestino é bastante mais lenta e reduzida.Os resultados destas experiências foram publicados há apenas alguns dias.

Ao contrário das EGCG sem PEG, a formulação levou um menor ganho de peso numa dieta "de engorda", maior sensibilidade à insulina e tolerância à glicose. Além disso, o efeito foi comparável a duas drogas antibiabéticas: a arcabose, inibidor das glicosilases, e as glitazonas. Mais uma vez convém deixar bem assente que se tratam de estudos preliminares em animais que requerem confirmação em humanos com ensaios clínicos.

As diferenças entre o chá verde e o concentrado de chá rico em catequinas está apenas na dose. Não é fácil padronizar a concentração de EGCG na infusão já que será influenciada pela própria erva e pelo tempo. A exposição solar do chá aumenta o teor em catequinas. Assim, as variedades Japonesas mais apreciadas como o Gyokuro e Kabusecha, cultivados à sombra durante algumas semanas antes da colheita, acabam por ter menor teor nestes compostos. Para se obter uma extracção máxima de catequinas é necessário utilizar água bem quente e manter a infusão por 10 min. Ora, este procedimento estraga totalmente o sabor do chá. Em média, uma chávena de chá (250 mL) tem cerca de 150 mg de catequinas.

Não é transparente se de facto o chá verde tem efeitos a nível da composição corporal. Apesar de o efeito parecer existir, a sua pequena magnitude coloca dúvidas relativamente à utilidade num regime de perda de peso. O que se consegue com uma intervenção a nível alimentar e de actividade física tem um impacto incomparavelmente maior. No entanto, a possível sinergia com o exercício físico e os efeitos antioxidantes reconhecidos ao chá verde fazem dele uma boa inclusão na dieta em quantidades moderadas, preferencialmente durante as refeições. O chá verde é também uma boa fonte de quercetina, uma outra molécula que tem sido muito estudada com objectivos terapêuticos e benefícios na saúde em geral.


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