16 de maio de 2013

As estatinas e o condicionamento físico


As estatinas, fármacos que reduzem o colesterol, são das drogas mais prescritas em todo o Mundo. Isto mesmo com as evidências crescentes de que podem não ser adequadas para toda a gente, se é que o são para alguém. São conhecidos os seus efeitos degenerativos no sistema nervoso e músculo, por exemplo. E se as estatinas influenciam negativamente o sistema músculo-esquelético, qual o seu impacto a nível do condicionamente físico? Uma equipa da Universidade de Missouri tratou de responder a esta questão num artigo publicado recentemente no Journal of the American College of Cardiology.


O condicionamente físico, ou fitness, é um indicador de longevidade e saúde. A actividade física é importante para a saúde metabólica e até reabilitação cardíaca. O que acontece se uma pessoa iniciar um programa de exercício enquanto toma estatinas? Nada de bom como devem imaginar... Segundo os resultados deste estudo, as estatinas bloqueiam a capacidade do exercício em melhorar o condicionamento cardiorespiratório.

Uma amostra de indivíduos obesos e sedentários foi submetida a um programa de exercício, dividida em dois braços experimentais: um grupo tomou 40 mg de simvastatina e o outro placebo. O grupo controlo melhorou a sua capacidade cardiorespiratória em cerca de 10%, comparativamente aos 1,5% do grupo com estatinas. Além disso, o número de mitocondrias no músculo diminui 4,5% neste último, contra os 13% de aumento verificado nos indivíduos que não tomaram estatinas, esta sim uma resposta normal ao programa de exercício.

Esta redução no número de mitocondrias é um parâmetro interessante que devemos olhar com atenção. O exercício físico, particularmente o "cardio", está normalmente associado a um aumento na biogénese mitocondrial que deriva da activação da AMPK e PGC1-alfa. Com estatinas observamos não apenas uma inibição deste processo, mas dados sugestivos de falência e degeneração mitocondrial. As estatinas inibem a via biossintética da Coenzima Q10, um composto muito importante na fisiologia e integridade das mitocondrias, o que pode explicar estes resultados. Pena que poucos médicos estejam alerta para esta questão, uma vez que a administração de CoQ10 com as estatinas pode resolver facilmente sintomas comuns de dor músculo-esquelética. 

Apesar de contarmos já com uns 20 anos de experiência com as estatinas como fármaco, é ainda pouco tempo para conhecermos a fundo todas as suas implicações a longo prazo. As evidências de que a sua utilização pode ter um preço elevado são crescentes e deve-mo-nos questionar se de facto vale a pena. Qual dos males o maior. Que este e outros estudos façam alguns médicos menos informados pensar duas vezes antes de passar a receita. Felizmente alguns já vão estando alerta para a questão.

Artigos relacionados:

Referência:
Catherine R. Mikus, Leryn J. Boyle, Sarah J. Borengasser, et alSimvastatin impairs exercise training adaptationsJournal of the American College of Cardiology, 2013; DOI:10.1016/j.jacc.2013.02.074


8 comentários:

  1. Mas um paciente com doença cardíaca não tem qeu tomar obrigatoriamente estatinas todos os dias? Acontece isso com o meu pai, que fez um triplo bypass...

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    1. Não necessariamente... Faz é talvez parte da terapia standard... Mas as pessoas não são estatísticas...

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  2. Eu faria a pergunta - Qual dos males é o maior?
    O que pode fazer alguém que utiliza há anos a simvastatina depois de ler este texto?

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    1. Olá Paulo,

      O meu conselho seria ler muito sobre o assunto e ter uma conversa informada com o médico.

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  3. Sergio,

    Uma questão. Deficiência em iodo, mau funcionamento da tiroide e LDL elevado. Esta conexão faz algum sentido para si ?

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    1. Faz todo o sentido... O problema aí é mesmo detectar a carência de iodo. O deficit de hormonas tiroideias pode também ter outras causas nutricionais, contaminação com metais pesados, xenobióticos, e outros.

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  4. Sergio,

    A curiosiodade é cada vez maior.

    Como medir a carencia de iodo ? (análise à urina, sangue)
    Como medir a contaminaçao por metais pesados ?
    Problemas com fluor (pastas de dentes, frigideiras antiaderentes? ) pesticidas (morangos?) ? cloeo das piscinas ?
    Niveis ideais de hormona tiroideia T3 Livre e T3 reversa ?

    Medicamentos que fazem subir o LDL ( diuréticos ? )





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    1. Não existem bons marcadores directos da deficiência em iodo, daí o problema. Uma análise à dieta e aos factores que podem aumentar a excreção são as melhores formas, embora o iodo eliminado na urina possa também ser comparado com a ingestão para uma estimativa.

      Contaminação por metais pesados é mais simples... urina, sangue, cabelo, sintomática...

      Vários químicos podem interferir com as hormonas da tiróide, quer a nível da produção de T4 como na conversão de t4 em T3, ou rT3. Só com uma análise à dieta, exposição a contaminantes e aos sintomas é que poderíamos ter uma ideia.

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