7 de maio de 2013

O cortisol e a gordura abdominal - como avaliar?


O cortisol, a hormona do stress, tem sido associado a maiores % de gordura, particularmente abdominal, e menor massa magra total. Embora se trate de uma hormona catabólica por excelência, o cortisol activa vários mecanismos que levam ao ganho de peso a longo-prazo: aumento da actividade da LPL (lipoproteína lipase) e genes lipogénicos, resistência à insulina, fome, entre outros. Tendo em consideração que o stress crónico é um problema disseminado na sociedade moderna, a gestão dos níveis de cortisol é muitas vezes crítica num programa eficaz de perda de peso. Mas apesar de existirem sinais indirectos de exposição excessiva à hormona, qualquer terapia deverá ter por base uma avaliação laboratorial dos seus níveis. A questão que se coloca é: como avaliar?


A resposta não é tão simples como poderia parecer à partida. A avaliação dos níveis de cortisol em jejum no sangue é uma péssima medida da exposição à hormona e apenas está alterada em situações patológicas mais extremas. Além disso, não nos dá qualquer informação sobre um outro aspecto de grande importância: o padrão de exposição ou o ritmo circadiano. Os níveis de cortisol obedecem a um ritmo biológico com um aumento pela manhã ao acordar e decréscimo desde então até ao novo pico. Eventos do dia-a-dia, como o exercício por exemplo, provocam pulsos mais ligeiros. Embora seja rara uma alteração nos níveis matinais, um padrão circadiano anormal é relativamente comum e pode manifestar-se como uma inversão (pico ao final do dia), ou uma curva flat em que os níveis estão altos durante todo o dia e não oscilam normalmente.

Se quisermos avaliar o padrão biológico do cortisol, o teste adequado será sempre a medição periódica na saliva - o chamado "biorritmo do cortisol". O protocolo mais comum recorre a 4 medições diárias em horários específicos. A saliva tem também a vantagem de ser um indicador do cortisol livre, com efeito fisiológico. Este teste dá-nos portanto uma noção da "quantidade" de cortisol, mas também do padrão de exposição e produção.

E quando falamos em obesidade, o que será mais importante? O total produzido nas supra-renais ou o padrão? De acordo com um estudo recente publicado no American Journal of Human Biology, que recorreu a medições periódicas na saliva, apenas os padrões flat estão associados a um menor índice de massa magra do tronco e maior % de gordura. Um grande desvio padrão intra-individual parece protector e favorecer uma preservação da massa magra. A amostra foi constituída por um grupo de 217 polícias, uma profissão de risco para stress crónico.

Na verdade este não é um dado novo e na abordagem mais funcional da medicina é já um facto bem estabelecido. O cortisol não é "mau", e sim absolutamente essencial, mas torna-se bastante negativo quando os seus padrões fisiológicos estão alterados. A terapia foca-se na restituição de um ritmo biológico normal do cortisol e não na sua redução "à bruta". Para isto, a abordagem mais eficaz deve ser holística e não se focar apenas num dos muitos aspectos que influenciam a nossa regulação hormonal. O estilo de vida, lazer, exercício, alimentação e suplementação terão uma acção terapêutica sinérgica que deve ser explorada. Em relação aos últimos, a eliminação de hidratos de carbono rápidos e estimulantes, e o reforço com vitaminas do complexo B, vitamina C, fosfatidilserina e adaptogénios naturais são alguns exemplos de estratégias de sucesso que podem ser adoptadas para favorecer um ambiente fisiológico mais propício à perda de gordura corporal.

8 comentários:

  1. Onde se consegue fazer o teste do biorritmo do cortisol?

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    1. Existem laboratórios em PT que o fazem sim. O David Santos Pinto por exemplo.

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  2. Caro Sergio, e em relação à tiroide gostava de o ouvir ? Quanto ao teste é interessante mas tornar o padrão "normal" não deve ser fácil !

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    1. A tiróide é uma questão complexa... Há muito mais para além dos testes bioquímicos.

      Não é fácil, mas também não é impossível. O problema é que as pessoas são muito resistentes a mudar de hábitos, e às vezes a suplementação e optimização da dieta não são suficientes.

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    2. Pelo que li será então também desejavel que num programa de perca de peso seja feita tambem uma avaliação do ciclo diário do Cortisol ?

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  3. Eu não diria sempre, tendo em conta o custo elevado do teste (cerca de 100 eur). Apenas em casos suspeitos ou quando as abordagens iniciais não têm grande sucesso. A distribuição da gordura tb é um indicador.

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    1. Sergio, muito obrigado ! A frase "a tiroide é uma questão complexa" aguçou-me a curiosidade se tiver tempo e puder desenvolver este tema seria interessante !

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