5 de junho de 2013

Dietas vegetarianas associadas a uma maior longevidade? As minhas dúvidas...



Ao que parece, as dietas vegetarianas estão associadas a uma maior longevidade. Pelo menos é o que nos diz um novo estudo que anda na boca dos media. Uma coorte de Adventistas do 7ª dia, uma espécie de religião protestante (?), foi seguida durante cerca de 6 anos e estudada relativamente à associação dos padrões alimentares com a mortalidade. De acordo com os primeiros resultados, uma dieta vegetariana parece associada a uma maior longevidade, com uma redução do "risco de morte" em 12%.


Porque eu não acredito que isto seja relevante? Bom... Os próprios autores nos dizem que os vegetarianos neste estudo tendem a ser mais "escolarizados", casados, bebem menos álcool, fumam menos, fazem mais exercício, e são mais magros. Então, a redução da mortalidade é devido ao facto de comerem plantas ou aos comportamentos associados ao vegetarianismo? O que acontece quando um omnívoro tem mais escolaridade, é casado, não bebe álcool, não fuma, faz exercício e é magro? No fundo é um "omnívoro" saudável... Com uma maior esperança de vida.

Além disso, os Adventistas do 7ª dia são por "doutrina" vegetarianos (ovo-lacto julgo eu). Eu não percebo nada de religião, mas se assim é, é natural que quem "ignora" estas regras também o faça com as recomendações de saúde em geral, em grande parte infundadas como é o caso da carne. Já vos falei desta questão no âmbito da associação da carne vermelha com o cancro colorectal e da carnitina com o risco cardiovascular. Comer carne está associado a comportamentos menos saudáveis no geral quando comparamos aos vegetarianos, mais conscientes para outros aspectos também importantes na saúde. Como tal, não é de estranhar que surjam estudos epidemiológicos a mostrar associações com esta. Mas associações são isso mesmo... associações. Não significa causalidade. O ensaio controlado que poderia permitir estabelecer uma relação direccional e causal é metodologicamente desafiante e proibitivo em termos de recursos. Como poderíamos fazer um ensaio duplamente mascarado e controlado nestas condições? Não podíamos... E como não podemos, a maior ou menor longevidade com uma dieta vegetariana, e só com a variável dieta, é um assunto de crença e não de ciência. Pelo menos para já...

Como complemento, sugiro a leitura deste outro artigo. Há mais para além da dieta...

3 comentários:

  1. Sugiro a leitura dos estudos feitos na china em que a população é vegetariana mas não é escolarizada. Acho sem dúvida desafiante a realização de um estudo nesta área.

    ResponderEliminar
  2. A população do estudo faz parte das chamadas Blue Zones (zonas de longevidade no mundo) e das 4 restantes, nenhuma é vegetariana, no entanto possuem todas uma forte base vegetal. A razão por detrás de tal longevidade e saúde será certamente o regime hipocalórico (já muito bem documentado e que também acontece na china e é independente do nível de escolaridade). Gostaria no entanto de partilhar as minhas reservas relativamente a todos os estudos realizados com carne, leite e seus derivados nos Estados Unidos, uma vez que é permitida a administração de todo o tipo de hormonas para acabamento do animal, acabando estas por entrar na nossa cadeia alimentar. Essa será certamente a principal razão para que muitas das associações encontradas em estudos realizados nos Estados Unidos não sejam passíveis de serem replicados na Europa.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O caso do cancro colorectal, cujo link está no artigo, é um bom exemplo disso. Concordo inteiramente.

      Eliminar