21 de junho de 2013

O colesterol e o risco de acidente vascular cerebral


Todos sabemos que o colesterol aumenta o risco cardiovascular (NOT!). Existe uma associação entre níveis mais elevados no sangue e a mortalidade por doença cardíaca e vascular. O que faz todo o sentido. Se um incêndio aumenta o número de bombeiros que acorrem ao local, então encontrar muitos bombeiros juntos aumenta o risco de incêndio. As doenças cardiovasculares são na sua maioria inflamatórias. Níveis elevados de colesterol são uma consequência e não uma causa. Interessa sim saber o "estado" do colesterol e padrão das lipoproteínas, o que já de si é um bom indicador do estado inflamatório e metabólico do indivíduo.

Dito isto, queria apenas chamar-vos a atenção para uma meta-análise que surgiu o mês passado na revista Stroke. Níveis BAIXOS de colesterol estão associados a um maior risco de acidentes cerebrovasculares hemorrágicos, uma relação oposta à que se verifica para os isquémicos, mais frequentes no Mundo Ocidente. Um incremento de 1 mmol/L está associado a uma redução do risco em 15%. E níveis baixos de LDL-C estão também relacionados com uma maior probabilidade de vir a ter um AVC hemorrágico.

Na verdade, esta associação é há muito conhecida desde os primeiros estudos com a população Japonesa. Enquanto o Ocidente arranjava uma batalha contra o colesterol e as gorduras saturadas, muito lucrativa diga-se, o Japão fazia precisamente o contrário. Promovia o aumento do colesterol na sua população, cujos níveis médios eram de facto muito baixos, de forma a tentar reduzir o risco de AVCs hemorrágicos, com uma incidência elevada nesse país. Curiosamente o Japão era até usado como um exemplo a seguir na batalha contra o colesterol. O que não referiam é que eles próprios travavam a sua - aumentá-lo.

E perguntam-me: do ponto de vista clínico, para o individuo que se senta à vossa frente, o que significam estes estudos e estas relações? Absolutamente nada. Associação não significa causalidade. E fazer da redução do colesterol o objectivo terapêutico principal na prevenção primária ou secundária das doenças cardiovasculares é como tomar um banho frio quando temos febre numa gripe. De facto reduz a temperatura, mas a infecção continua lá.

6 comentários:

  1. então qual o caminho a seguir?
    Estatinas ao lixo e cuidar da alimentação?
    basta?

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    1. Olá Paulo,

      As questões que leva fogem já um pouco ao artigo. Falei apenas do colesterol como marcador de risco cardiovascular e das incoerências como preditor de mortalidade.

      No entanto, e já que me questiona em relação a isso, eu não acho que as estatinas sejam lixo. Terão o seu papel terapêutico, mas não para baixar o colesterol. É conhecido o efeito pleiotrótico das estatinas, com um efeito anti-inflamatório acentuado. Mas os riscos associados ao seu uso fazem com que não veja com bons olhos a sua utilização, especialmente como intervenção primária, sem tentar alternativas. Quando me pergunta alimentação? Para reduzir o colesterol? Mas se o colesterol não é um factor de risco... Agora... cuidar da alimentação sempre... para evitar os factores que estão subjacentes ao colesterol elevado.

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  2. Sérgio, chegamos à conclusão que o valor de colesterol total não será assim tão relevante, mas sim os valores de HDL e LDL? É isso?

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    1. Na verdade, o importante seria o tipo de hdl e o tipo de ldl... mais do que o valor total :)

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  3. Boa tarde,
    Será que me poderia indicar a bibliografia deste post? muito obrigada :))
    Sara Lucas

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  4. Olá Sara,

    O link do artigo está no texto: http://stroke.ahajournals.org/content/early/2013/05/23/STROKEAHA.113.001326.abstract

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