4 de julho de 2013

Mais sobre o sono, saciedade e metabolismo: o GLP-1


Muito vos tenho eu falado da importância de uma boa noite de sono na regulação interna dos nossos mecanismos de homeostase energética e sensibilidade à insulina. É bem sabido que uma noite mal dormida afecta os nossos padrões de saciedade, aumento a fome e ingestão calórica espontânea ao longo do dia. A alteração do perfil hormonal tem sido apontada como o principal responsável, embora ainda não se saiba ao certo que mecanismos estarão envolvidos. Um estudo agora publicado mostra que a privação do sono durante uma noite atrasa em 90 min a resposta do GLP-1 à ingestão do pequeno-almoço, sem influenciar a quantidade total produzida ao longo do dia [link]. Esta alteração da dinâmica secretória pode ajudar a explicar em parte os efeitos da privação de sono a nível metabólico.

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O GLP-1 é uma hormona intestinal que responde quando são ingeridos alimentos - uma incretina - com acção sobre diversos tecidos e órgãos. O GLP-1 estimula a secreção rápida de insulina, inibe a gluconeogénese hepática, reduz a velocidade de esvaziamento gástrico, aumenta a sensibilidade à insulina e exerce um efeito saciante a nível central. Assim sendo, é natural que esta hormona esteja a ser usada com sucesso no tratamento da diabetes e, mais recentemente, obesidade. No entanto, alguns efeitos secundários graves têm sido relatados, nomeadamente pancreatite, e neste momento a sua utilização terapêutica está a ser reavaliada [ler mais sobre o GLP-1 e obesidade aqui].



Se a resposta do GLP-1 à refeição é atrasada, os seus efeitos não são evidentes nas fases precoces do período absortivo. Não se verifica um efeito saciante imediato, o que poderá levar a fome precocemente. E mais importante, a secreção de primeira fase de insulina é atenuada e o efeito inibitório da neoglucogénese não se acentua após a ingestão de alimentos. Como tal, é provável que ocorra hiperglicémia pós-prandial e durante o período absortivo. A queda abrupta em fases posteriores afecta os glucoreceptores cerebrais que monitorizam a glicémia, que vão actuar no sentido de aumentar a fome. Além disso, a hiperglicémia e hiperinsulinémia tardia e prolongada irão contribuir para a inibição da sinalização da insulina, reduzindo a tolerância à glicose.

Este é apenas um dos potenciais mecanismos que explicam o efeito da privação do sono a nível dos processos de regulação metabólica. Já vos falei um pouco desta questão noutros artigos que poderão ler ou reler através dos links no final. O GLP-1 é um dos principais factores que regula a saciedade e glicémia em resposta a uma refeição e, tendo em conta que a privação do sono parece afectar a sua dinâmica, é natural que exerça aqui também um papel de destaque. Fica apenas por explicar o mecanismos que leva  à resposta atrasada após privação do sono, um assunto a que os investigadores se irão dedicar no seguimento deste trabalho. De qualquer forma, fica mais uma vez patente a importância de um sono regenerador para a saúde metabólica, algo que eu não negoceio numa intervenção eficaz para optimizar a composição corporal.

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