5 de julho de 2013

O ritmo circadiano e a permeabilidade intestinal


Nos últimos tempos tenho-vos falado bastante do papel que os mecanismos de controlo do nosso ritmo circadiano têm a nível metabólico. Não que tenha acordado agora para o assunto, mas porque estamos neste momento a assistir ao nascimento de mais uma vertente clínica: a "medicina circadiana". Uma disrupção dos ciclos dia-noite, como a privação parcial ou total de sono, aumenta o risco de doenças cardiometabólicas, altera profundamente a regulação da homeostase energética (diminui a saciedade), e reduz a sensibilidade à insulina. Além disso, é reconhecido que, por exemplo, uma noite sem dormir aumenta os episódios agudos de doenças gastrointestinais crónicas, como a colite. Apesar de não se saber ainda ao certo qual o processo que une estas variáveis, uma coisa parecem partilhar: inflamação. Num trabalho publicado há dias na PLoS ONE [link], uma equipa de investigadores mostra que a disrupção genética ou ambiental dos factores endógenos de controlo circadiano em ratinhos aumentam a susceptibilidade a esteatose hepática induzida pelo álcool, derivada de uma maior permeabilidade intestinal e inflamação.

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Apesar de ser bem aceite o carácter inflamatório que une a doença à disrupção do ritmo circadiano, a fonte dessa inflamação continua por desvendar. De acordo com o novo estudo que vos falo, o intestino e a microbiota são fortes candidatos. O epitélio intestinal funciona como uma barreira semi-permeável entre factores agressores, como as endotoxinas (LPS), e o sistema imune, numa interacção orquestrada pela microbiota intestinal. Era já conhecido que o LPS (endotoxemia) provoca esteatose hepática em animais. O álcool por si aumenta a permeabilidade da barreira epitelial favorecendo endotoxemia. Mas, segundo estes novos dados, um ritmo circadiano desincronizado potencia o processo aumentando a permeabilidade intestinal. A explicação poderá residir na modelação da expressão de ocludina, uma proteína que participa nas junções entre células justapostas, reduzindo a sua localização na membrana. Além disso, é possível e provável que ocorra uma alteração da microbiota com implicações em todo este processo, algo que não foi avaliado neste estudo.

Sem tempo para mais hoje, quero apenas reforçar a importância que a nossa cronobiologia tem para a saúde. Os ciclos noite-dia, sono-vigília, não são meros caprichos. São momentos de o nosso organismo fazer um "reset" e reajustar todos os processos metabólicos e mecanismos de resposta a estímulos externos. Quando os interrompemos, sinais de stress e inflamação são enviados que, ao continuarem de uma forma crónica, resultam num risco acentuado para a saúde cardiometabólica.


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