28 de julho de 2013

Os ómega-3 aumentam o risco de cancro da próstata?


Fiquei de vos escrever sobre o tal estudo que associa os ácidos gordos ómega-3 ao cancro da próstata [link]. Outras coisas têm surgido pelo meio, e o tempo não é elástico, mas mais vale tarde do que nunca :). Este é apenas mais um exemplo da iliteracia científica dos media, que no fundo “fazem” a opinião pública. “Homens que tomam suplementos de ómega-3 tem um risco 71% maior de cancro da próstata”, de acordo com o NY Daily News, entre outras pérolas da imprensa. Também em Portugal, alguém do portal Sapo se lembrou de escrever: "Consumo de suplementos de ómega-3 associado a maior risco de cancro da próstata" [link]. Mas mais grave do que isso, neste caso foram os próprios autores que meteram o pé na argola, numa clara agenda anti-suplementos sem qualquer fundamento e validade científica.

Os resultados deste estudo não me surpreendem, vindos de uma equipa que tinha antes “demonstrado” que as gorduras trans eram boas, algo que vieram a confirmar também neste estudo. Os autores verificaram que indivíduos com níveis mais altos de ómega-3 no sangue tinham maior risco de desenvolver cancro da próstata. Mas na verdade, o único ácido gordo ómega-3 que se associou ao cancro foi o DHA. Notem bem. Nenhuma variável de consumo ou suplementação foi considerada. Apenas os níveis no sangue. Portanto, dizer que o "Consumo de suplementos de ómega-3 [está] associado a maior risco de cancro da próstata" [link] faz todo o sentido. E citando a equipa na sua nota de imprensa: “mostrá-mos uma vez mais que o uso de suplementos alimentares pode ser perigoso”. Brilhante! Não revela nada a agenda e preconceitos da equipa... Até quando, por acaso, a grande maioria dos participantes nem sequer tomava suplementos de ómega-3! 

Não sei bem porque razão, mas os níveis de ácidos gordos no sangue foram expressos em % do total. Ora, isto é simplesmente inútil. Digam-me... Preferem ter 90% do meu dinheiro ou 10% do dinheiro do Bill Gates? Sem saber o valor absoluto, as percentagens não significam absolutamente nada. Além disso, os resultados não são consistentes. Por exemplo, o 3º quartil de % de ómega-3 tem maior risco de cancro de alto grau (mais perigoso) do que o 4º, quando os níveis plasmáticos são superiores. O mesmo se verifica para os níveis de DHA em específico. Um dos critérios de Bradford-Hill, para estabelecer causalidade em medicina, é o "gradiente biológico", um efeito dose-resposta que aqui claramente não se verifica. E quando consideramos o tipo de cancro mais grave, a diferença entre o primeiro quartil, referência, e o 3º quartil, com maior risco (78%), é menos de 2%. No grupo com níveis mais baixos, a % era <2,33, e no mais elevado, >3.62%. Ora, a mim parece-me uma diferença demasiado pequena para um efeito tão grande. 

Se é meu leitor, certamente que se preocupa um pouco com a qualidade da investigação científica e com a correcta interpretação dos resultados. Todos os estudos têm o valor que têm, e não mais do que isso. Afirmações como as que foram feitas, de que os ómega-3 causam cancro e que a suplementação é perigosa, só podem ser retiradas de ensaios controlados e duplamente mascarados, os RCTs. Nunca de um estudo epidemiológico e correlacional como este! Sabia que o consumo de gelados está altamente associado à taxa de assassinatos? (imagem seguinte) E também ao ataque de tubarões como já vos tinha falado. Encontra alguma plausibilidade nisto? Existe, mas é uma variável secundária que não foi considerada: o calor. Se A está altamente correlacionado com B, e B com C, é natural que C esteja com A, mesmo quando uma coisa não tem nada a ver com a outra. Há mais para além da estatística meus caros... Chama-se plausibilidade biológica, mais um dos critérios de Bradford-Hill e que é tantas vezes esquecido... 

Fonte: Precision Nutrition

O que poderia causar um aumento da % de DHA no sangue? Não sei. O que eu sei é que uma dieta pobre em gordura aumenta o DHA no sangue porque dificulta a sua incorporação nas membranas celulares (competição com outros) [link]. E lembrem-se que não sabemos as concentrações absolutas. Que outro motivo tinham os autores para não as revelar a não ser se elas fossem contra a sua hipótese? Poderia muito bem dizer que os indivíduos de maior risco têm % mais altas de DHA no sangue simplesmente porque ele não está onde devia (nas membranas), e que isto foi causado por uma dieta muito rica em hidratos de carbono. Mas como sou um tipo intelectualmente honesto, nem isso posso fazer porque não tenho qualquer informação relativamente à dieta. Além disso, os níveis plasmáticos refletem consumo agudo, ou seja, são afectados grandemente pela composição das refeições nas últimas horas antes da colheita, das quais sabemos ZERO. Porque não avaliaram o perfil de ácidos gordos eritrocitário? Mistério... 

A equipa parece não dar qualquer importância a factores de risco como: 

     53% dos homens com cancro da próstata eram fumadores 
     64% consumiam álcool regularmente 
     30% tinham historial familiar (1º grau) de cancro da próstata
     70% tinham mais de 60 anos ao início do estudo
     80% eram obesos

Considero este último particularmente importante, não só pela elevada incidência na amostra, mas porque está directamente implicado e associado a este tipo de cancros inflamatórios. A obesidade é um estado de inflamação crónica. Estranho como um nutriente com comprovada acção anti-inflamatória, inibidor do NF-kB, possa estar implicado na patogénese do cancro da próstata. E a idade? Não será também ela uma explicação? Indivíduos mais velhos em maior risco? Digo isto porque, não sei... Mas parece que a idade está relacionada com maiores níveis de ómega-3 em circulação [link].

Na verdade, existe um factor que poderia justificar o maior risco de cancro nos indivíduos com altos níveis de ómega-3. A peroxidação lipídica desses ácidos gordos polinsaturados poderia promover a carcinogénese na próstata, um tecido altamente sensível ao stress oxidativo. Os produtos da COX podem estimular a angiogénese, e, em teoria, promover a progressão do tumor, mas não a sua iniciação. Mas a verdade é que nada podemos concluir a este respeito já que não temos uma avaliação dos níveis de peróxidos, que poderia ter sido feita facilmente, nem tão pouco as quantidades absolutas de ómega-3 em circulação. 

Os autores fazem também uma revisão a que chamam “meta-análise”, falando de outros estudos que corroboram os seus dados. Mas a verdade é que a literatura não é tão clara como tentam fazer passar. Por exemplo, Epstein [link] associou os níveis de ómega-3 a uma maior taxa de sobrevivência (40%) ao cancro da próstata. No entanto, refutar epidemiologia com epidemiologia não acrescenta muito à ignorância geral que existe sobre o tema: faltam RCTs! 

Também gosto particularmente do papel benéfico que as gorduras trans parecem ter para o cancro da próstata. Os indivíduos com níveis mais altos são os que menos risco apresentam. Portanto, podemos concluir que o croaissant com margarina é o pequeno-almoço mais saudável que um homem de meia-idade pode ter. Mais alguém acha isto tão estúpido como eu? 

Não me vou alongar mais com as críticas a este estudo, algo que já foi feito por vários autores, entre eles até pessoas da minha convivência. Mais uma vez, à semelhança do que já tínhamos falado para a carne vermelha e cancro [link 1, link 2], estudos são transformados em lixo pela agenda pessoal dos autores, alguns momentos de fama, ignorância dos media, e falta de espírito crítico do cidadão comum que aceita tudo como se fosse uma verdade absoluta.

Vocês conhecem-me. Sabem que não sou o maior defensor do consumo de suplementos alimentares, e alerto muitas vezes para a necessidade de cautela no seu uso. Por acaso os ómega-3 são dos poucos que recomendo, em situações específicas e num enquadramento especial da dieta. Mas não é isto que me leva a criticar o estudo. É sim contribuir para vos devolver a verdade científica dos factos, e apenas isso. Os ómega-3 reduzem o risco de cancro da próstata? Não sei... Aumentam o risco? Também não... Mas sei que este estudo não prova nada disso e não é razão para deixar de tomar o seu suplemento.

4 comentários:

  1. Depois de ler este artigo apeteceu-me rir. Não só porque os "jornalistas" fizeram um mau trabalho, mas também porque o Sérgio desconstruiu todo o argumento com 5 números. Brilhante

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  2. "(...) uma dieta pobre em gordura aumenta o DHA no sangue porque dificulta a sua incorporação nas membranas celulares (competição com outros)[link]" No link http://jn.nutrition.org/content/131/2/231.full não há referência a Docosa-hexaenoic-acid(DHA) no estudo efetuado, mas aos "levels in plasma phospholipid fatty acids and cholesteryl esters". Não se pode daqui inferir para uma particularização.
    Cumps.

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    1. Rui,

      Se ler o artigo completo, e a tabela apresentada, verifica que há um aumento de todos eles, incluindo o DHA.

      Cumps

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  3. Excelente artigo Sérgio.
    Merece ser partilhado, isto para que as pessoas percebam comecem a perceber que é difícil podermos dar alguma credibilidade aos mass media no que toca a estes assuntos.

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