2 de agosto de 2013

A arginina pré-treino e a hormona do crescimento


Se há suplemento em nutrição desportiva que eu considero inútil são os vasodilatadores, normalmente à base de arginina pura ou derivados (AAKG). Embora compreenda que seja engraçado ver as veias a transformarem-se em pipelines e ter aquela sensação de congestionamento durante o treino, em termos de adaptações e resultados isto vale pouco ou nada. O pré-treino é normalmente a altura preferencial para a toma destes produtos, que muitas vezes combinam substâncias vasodilatadoras com estimulantes que nos dão aquele kick para uma sessão vigorosa. Se é este o objectivo, muito bem. Mas quero mostrar-vos um lado menos bom da toma de arginina no pré-treino. Ela parece inibir o aumento normal da hormona do crescimento em resposta ao exercício.

A arginina é um aminoácido com uma função muito particular. É o percursor do NO (óxido nítrico), o principal responsável pelo relaxamento dos vasos e vasodilatação. O NO é produzido no endotélio em resposta a um estímulo (ex.: insulina, acetilcolina, contração, entre outros) através da conversão da arginina em NO e citrulina pela eNOS (sintase de óxido nítrico endotelial). O NO difunde rapidamente até ao músculo liso da túnica média, causando o relaxamento do vaso e consequente aumento de calibre.

Em teoria, a vasodilatação leva a uma maior perfusão muscular e fluxo de nutrientes e oxigénio. Na verdade, grande parte dos efeitos anabólicos da insulina no músculo se devem exclusivamente ao seu efeito potenciador do NO, aumentando o fluxo e captação de aminoácidos e nutrientes energéticos. Se a arginina for tomada no pré-treino, o estímulo da contracção levaria a um relaxamento preferencial nos vasos do músculo em esforço, nutrindo mais eficazmente essas células sob stress. Além disso permitiria também uma remoção mais eficiente dos detritos e ácido láctico que resultam do catabolismo muscular. Mas será isto assim tão benéfico? Hoje assume-se que a acumulação de ácido láctico durante o treino é benéfica para o processo de hipertrofia, exercendo um papel osmótico que hiperhidrata a célula e estimula mecanismos adaptativos. Além disso, um burst de ácido láctico parece também estimular um ambiente anabólico propício no pós-treino, potenciando a libertação de testosterona e hormona do crescimento (HC). O treino é um potente estímulo para a secreção de hormona do crescimento que, embora controverso, alguns autores consideram fulcral na promoção do ambiente anabólico que permite hipertrofia. Para aprofundar um pouco mais a relação entre a hormona do crescimento e o treino, leia também este artigo: "A resposta hormonal ao treino: Hormona do Crescimento".

A verdade é que o efeito vasodilatador que a arginina exerce quando tomada no pré-treino não parece ser significativa. A contracção por si é suficiente para induzir uma perfusão muscular máxima, desde que exista arginina em quantidade suficiente [link]. E para isto basta manter uma pool óptima de aminoácidos, assegurada por uma dieta adequada e rica em proteínas de alto valor biológico. 

A arginina é também conhecida pelo seu efeito potenciador da hormona de crescimento. Sabe-se que a administração intra-venosa ou oral de arginina aumenta consideravelmente a HC. Na verdade, há muito que é usada nas provas de estimulação à pituitária em indivíduos deficientes nesta hormona. Acredita-se que o seu efeito estimulante tenha a ver com uma supressão à somatostatina, um péptido que inibe retroactivamente a produção de HC. Quando a HC sobe, a samatostatina aumenta, inibindo a continuação do pulso de HC. Por outro lado, o próprio NO funciona como neurotransmissor na pituitária e poderá desempenhar um papel importante como estímulo ao pulso de HC.

Dito isto, uma equipa de investigadores testou a hipótese de que a arginina no pré-treino teria um efeito combinado e sinérgico com o treino para um aumento da HC [link]. Recrutaram 8 homens saudáveis para uma experiência que consistia na avaliação da HC com arginina (7 g), treino, treino+arginina, ou placebo. A arginina foi tomada 30 min antes do treino, que consistia em exercícios de resistência muscular (musculação) a 80% da 1RM. Mas nem sempre as coisas correm como o esperado e o que se verificou foi o seguinte:


A arginina parece atenuar consideravelmente o aumento da HC em resposta ao exercício. Olhando para um indivíduo em particular a magnitude e timing da resposta fica mais clara:


Como podemos observar, o exercício sozinho provocou a resposta mais acentuada da HC, com um aumento da baseline perto das 15 vezes. A suplementação com arginina 30 min antes reduziu a resposta em cerca de 1/3. Porque isto acontece? Não se sabe ao certo e os autores não avançam com muitas hipóteses. É provável que a arginina tenha induzido um aumento demasiado rápido antes do onset da resposta provocada pelo treino. Podemos ver isso aliás no gráfico, onde o pico de concentração induzido pelo treino é 30 min mais tardio do que em arginina+treino. Este pico precoce deverá ter iniciado os mecanismos de inibição retroactiva à hormona do crescimento, bloqueando de forma parcial a resposta ao exercício. Não só a somatostatina é responsável pela inibição, mas também o IGF-1 que aumenta em resposta à HC. Se há uma elevação prévia, a resposta a um estímulo seguinte fica atenuada, mesmo que se trate de um estímulo de maior amplitude. O resultado são níveis de exposição total consideravelmente inferiores.

Podemos argumentar que a dose de arginina foi demasiado alta e que a maior parte dos produtos não atinge  os 7 g. As doses efectivas que encontramos na literatura andam entre os 5 e os 9 g. Mas alguns suplementos utilizam alfa-cetoglutaratos de arginina (AAKG), uma forma mais biodisponível. Na verdade, apenas uma parte da arginina livre ingerida fica disponível para os tecidos periféricos e cérebro. Uma quantidade apreciável é metabolizada imediatamente nos enterócitos e fígado, tornando-se necessárias doses altas para se verificar efeito. No entanto, estudos sugerem que apenas 1,5 g de arginina + 1,5 g de lisina aumentam por si a hormona do crescimento em 2,7 vezes [link]. Embora isto possa parecer muito, reparem na diferença de magnitude comparativamente à resposta ao treino apenas, que pode elevar a HC entre 15 e 20 vezes!

Concluindo, tendo em conta que a arginina não parece eficaz a potenciar a perfusão muscular durante o treino e que pode atenuar a resposta hormonal ao exercício, não considero que seja o melhor suplemento para tomar no pré-treino. Se o que procura são os estimulantes que geralmente a acompanham, beba um café. Beba dois... Nada indica que estes produtos tenham um impacto positivo na performance para além de um kick para o treino, e há produtos bem mais úteis onde gastar o seu dinheiro. E se fosse em bons alimentos, então seria fantástico.


5 comentários:

  1. Respostas
    1. Essa poderia ser uma opção, e é a mais óbvia, de forma a tentar amplificar o pulso endógeno de maior amplitude. Mas na verdade, a arginina irá elevar a HC em qualquer altura do dia...

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  2. essa substancia vcs encontrao batendo pela manha antes do treino beterraba com senoura ebeba sem coar ok

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  3. Parabéns pelo artigo.

    Visto nunca ter referido, de acordo com a minha pesquisa, nenhuma opinião acerca dos pré-treinos. Gostava de saber a sua opinião sobre os mesmos. Se serão prejudiciais para a saúde ou não e caso não seja defensor dos mesmos, qual na sua opinião o melhor estimulante pré-treino.

    Por que o que eu sinto bastante é falta de um "pump" de uma força extra, do tal "kick" no treino para potenciar o aumento das cargas.

    Saudações,
    João Nuno.

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