28 de agosto de 2013

A diabetes, os receptores gustativos, e o controlo da glicémia


Estamos habituados a falar da diabetes como uma "doença do pâncreas" ou intolerância periférica à glicose, mas a verdade é que poderá ser bem mais complexo do que isso. Um estudo publicado há alguns dias [link] mostra que os diabéticos aparentam ter uma disfunção nos receptores gustativos do intestino, responsáveis pela regulação da absorção de glicose e, possivelmente, estimulação das incretinas. Se bem se lembram, falámos destes receptores do "doce" quando discutimos a questão dos adoçantes artificiais [link 1, link 2, link 3]. Não é apenas a nossa língua que tem receptores gustativos. As células intestinais expressam "receptores de sabor doce", os STR ("sweet taste receptors"), que detectam a sinalizam a chegada de glicose ou outros alimentos doces ao intestino, preparando o organismo para a sua entrada em circulação. Um aspecto que estes STR parecem controlar é a velocidade de absorção, estimulando a translocação de transportadores de glicose GLUT2 para a face apical da célula (a face virada para o lúmen do intestino). Ora, em indivíduos normais, há uma inibição dos STRs em resposta a uma carga de hidratos de carbono, atenuando o estímulo e reduzindo a velocidade de absorção. Por seu lado, isto não parece acontecer em diabéticos, o que favorece uma absorção muito rápida da glicose e os picos de hiperglicémia característicos da doença.


Portanto, não é apenas o metabolismo da glicose que parece estar afectado mas também a sua absorção que fica acelerada. Nestes casos, a velocidade de digestão é um factor mais condicionante da glicémia do que em indivíduos normais, capazes de ajustar a taxa de absorção à carga. Mas a verdade é que a digestão raramente é limitante quando falamos em alimentos de alta carga glicémica (GL), independentemente do índice glicémico (IG). É um processo suficientemente rápido para fornecer glicose livre a um ritmo superior à taxa normal de absorção (perto de 60 g/h). Além disso, mesmo com um pico menor quando se ingerem alimentos de baixo IG, a exposição total é maior quando a GL aumenta, o que é igualmente mau, se não pior para o controlo da glicémia. Não é apenas o tipo de hidratos de carbono que interessa, como muitas vezes é veiculado, mas essencialmente a quantidade. É também possível que esta disfunção se verifique em indivíduos não-diabéticos mas com uma homeostase glicémica alterada.

Por hoje é tudo que o trabalho não permite mais. Vai ser um dia preenchido com consultoria individual e outros assuntos que revelarei em breve! Stay tuned ;)


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