9 de agosto de 2013

Carne vermelha associada a MENOR risco cardiovascular e de cancro? Pelo menos na Ásia...


Quando vi este paper ontem [link] soube desde logo que não poderia deixar de ser tema de mais um artigo aqui no blog. Como sabem, não aceito a associação que é feita entre a carne vermelha e a mortalidade, cancro, ou doença cardiovascular. Não é mais do que uma relação estatística artefactual que esconde outros factores de risco, estes sim com implicações patofisiológicas. Este foi um assunto já discutido em alguns artigos no site [link 1, link 2]. Epidemiologia e correlação não são sinónimo de causalidade, uma lição que os media iletrados em ciência ainda não compreenderam ou simplesmente ignoram para causar impacto no público. Mas se utilizarmos as mesmas armas, epidemiologia contra epidemiologia, proporcionamos combates muito interessantes. Ao que parece, o consumo de carne vermelha está associado a um menor risco cardiovascular e mortalidade geral em populações Asiáticas, e até menor risco de cancro entre as mulheres [link]. Que tal?

A associação estatística entre a carne vermelha e as doenças cardiovasculares ou cancro não é consistente na literatura, com uma predominância de resultados positivos em coortes Americanas. De um modo geral, esses estudos não distinguem carne vermelha de carnes processadas, um factor crítico que não pode ser negligenciado. Além disso, o método de confecção é de extrema importância, uma variável mal controlada em grande parte dos estudos. Num país onde "carne vermelha" é bacon, fiambre e churrascadas, é natural que apareçam algumas associações de risco mesmo que indirectas. Estes hábitos alimentares estão associados a outros comportamento de risco com prováveis implicações no cancro e doença cardiovascular.

É bom que afastemos também a ideia de que o consumo de carne vermelha está a aumentar no Ocidente. Pelo contrário, o consumo per capita tem vindo a diminuir e compensado por um aumento das carnes de aves. O gráfico seguinte ilustra os dados da FAO relativos ao consumo de carne de vaca e de aves nos EUA e em alguns países Asiáticos.


Voltando ao estudo em causa, uma equipa de investigadores Coreana agrupou dados de diversas coortes Asiáticas para estudar a associação entre o consumo de carne e o risco de doença ou mortalidade. Ao contrário do que estavam à espera, a "ocidentalização" dos hábitos alimentares como lhe chamaram não se revelou associada a doença cardiovascular, cancro ou mortalidade geral. Na verdade, há até uma tendência para redução do risco com o consumo de carne vermelha quando comparamos os indivíduos com consumo mais baixo e os com consumo mais elevado. Esta associação foi controlada para variáveis secundárias como idade, IMC, a escolaridade, hábitos tabágicos, consumo de álcool, vegetais e fruta. 


Seria muito desonesto da minha parte dizer que este estudo prova um efeito protector da carne vermelha. Na verdade, não prova absolutamente nada, tal como os outros tão badalados que associam a carne vermelha a todos os males do Mundo. Precisamos de ser bem mais críticos em relação à grande maioria dos estudos observacionais em Nutrição. A epidemiologia não é inútil. Tem o valor que tem: gerar hipóteses. Hipóteses que precisam de ser comprovadas.

Leitura complementar:



6 comentários:

  1. Não sei se este estudo é muito credível..Vai contra muita coisa já estudada e referenciada.

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  2. À nível dos nitratos, das nitrosaminas originadas e dos produtos usados mos animais, como hormonas de crescimento e antibióticos

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    1. Então aí o Luís já está a introduzir variáveis secundárias... Estamos a falar das carnes processadas e criação intensiva de animais. Não da carne vermelha em si.

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  3. Lá na minha casa nunca falha a matança do porco e do borrego na pascoa....tudo criado a pasto e ao ar livre ;)

    Nunca acreditei naquela da Carne vermelha ou até mesmo gordura saturada x doenças....o meu pai come muita gordura saturada e aos 60 esta em boaa forma :)

    Não toma medicamentos a uns bons anos...

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