24 de janeiro de 2015

Red Yeast Rice para o colesterol elevado e inflamação


É raro hoje em dia alguém com níveis de colesterol acima do recomendado sair do consultório médico sem uma prescrição de estatinas, mesmo tendo em conta os novos desenvolvimentos pouco abonatórios para esta classe de drogas. Mas as estatinas não apareceram do nada e na verdade existem alternativas na Natureza aos compostos sintetizados e com patentes de milhões: o Red Yeast Rice, disponível como suplemento alimentar. Mas serão os seus efeitos comparáveis? E em relação aos riscos? Trata-se de um composto ainda mal estudado, mas um trabalho publicado recentemente vem alegar efeitos comparáveis aos das estatinas, e que não se limitam à redução do colesterol. A suplementação com Red Yeast Rice parece reduzir o LDL-c, colesterol total, e aumentar significativamente os níveis de adiponectina [link].


As estatinas são inibidores da HMG-CoA redutase, a enzima limitante na síntese de colesterol endógeno. Assim sendo, é natural que a sua utilização reduza os níveis de colesterol no sangue. No entanto, as estatinas parecem aumentar o risco de diabetes [link], neuro-degeneração [link], reduzir a função mitocondrial no músculo [link], entre outros problemas descritos na literatura. Mas a verdade é que existem de facto alguns estudos que sustentam uma redução do risco cardiovascular em indivíduos tratados com estatinas. No entanto, só quem anda completamente alienado da investigação científica é que ainda acredita na hipótese do colesterol como agente causal da aterosclerose. Então o que poderá explicar a redução do risco? Simples... As estatinas têm uma acção anti-inflamatória, e a aterosclerose é essencialmente uma doença inflamatória.

Como quase todas as drogas, as estatinas não foram inventadas do nada e existem em compostos naturais. O Red Yeast Rice, um arroz fermentado com acções terapêuticas na Medicina Chinesa, contém uma substância chamada Monacolina K, mais tarde denominada pelas farmacêuticas como Lovastatina. Uma equipa Chinesa publicou recentemente os resultados de um ensaio clínico com Red Yeast Rice em pacientes com liperlipidémia primária. Os participantes tomaram 600 mg duas vezes por dia, durante 8 semanas. Ao final da intervenção, verificou-se uma redução significativa nos níveis de LDL-c (-38,11 mg/dL em média) e colesterol total (-44,54 mg/dL). Mas mais importante a meu ver foi o aumento aparente da adiponectina, um resultado consistente com o efeito anti-inflamatório que podemos atribuir os princípios activos do Red Yeast Rice.

A adiponectina é uma adipocina inversamente relacionada com os níveis de gordura e que desempenha um papel protector do metabolismo e saúde cardiovascular. A inflamação reduz os níveis de adiponectina, o que pode ser revertido com substâncias anti-inflamatórias como o ómega-3 [link]. A comprovarem-se os resultados deste estudo, o Red Yeast Rice pode ser altamente recomendável no tratamento da hiperlipidémia associada à obesidade.

Mas não foi por acaso que eu disse "a comprovarem-se os resultados" e devemos ser altamente críticos quando analisamos os dados deste estudo. Isto porque o desvio padrão é enorme para qualquer um dos parâmetros. A amostra é pequena (30 pessoas) e a variabilidade inter-individual parece ser substancial, com diferentes padrões de resposta entre as pessoas. No caso da adiponectina, para um aumento médio de 35,83 mcg/mL o desvio padrão foi 67,85 mcg/mL! Isto significa que em várias pessoas a adiponectina não aumentou, mas diminui consideravelmente. Serão precisos ensaios clínicos mais rigorosos para concluir sobre o efeito do Red Yeast Rice a este nível.

E antes de correrem para as lojas à procura de Red Yeast Rice, o que obviamente não devem fazer à toa, deixem-me tecer uma ou outra consideração acerca destes produtos. Primeiro, as marcas não são obrigadas a revelar a quantidade de Monacolina K e muitos dos produtos disponíveis no mercado, se não a maioria, apresentam quantidades residuais deste composto. Os ensaios clínicos foram efectuados com produtos de alto teor em Monacolina K. Além disso, alguns suplementos podem estar contaminados com Citrinina, uma micotoxina com possíveis implicações na disfunção renal. E para sermos honestos, os efeitos nefastos que têm sido associados ao uso crónico de estatinas não estão totalmente afastados para o Red Yeast Rice. Apenas não existe uma experiência controlada e monitorizada com o suplemento a longo prazo que permita despistar de forma robusta associações de risco. Ser "natural" não é sinónimo de seguro. Tanto quanto sei, a cicuta é natural e mata. Entre muitos outros venenos que a Mãe Natureza pôs ao nosso dispor...

Tal como acontece com as estatinas sintéticas, e tratando-se de um inibidor da HMG-CoA redutase, a utilização de Red Yeast Rice deve ser acompanhada de suplementação com Coenzima Q10. A síntese de Coenzima Q10 partilha grande parte da via metabólica com o colesterol. A inibição da HMG-CoA reduz a sua síntese, o que explica em grande parte os sintomas neuro-musculares e neuro-degenerativos que muitas pessoas experimentam com estatinas, e que observam melhorias significativas e rápidas com o inicio da suplementação com Coenzima Q10.

Concluindo, o Red Yeast Rice pode ser uma alternativa primária às estatinas, embora haja ainda um grande trabalho de investigação pela frente. Os efeitos a longo prazo são ainda pouco claros e a qualidade dos produtos varia imenso. Ora, isto leva-nos à mesma "lenga-lenga" do costume. A escolha do produto e da marca é crítica e a compra não é mais do que um tiro em confiança. O mercado de suplementos alimentares é mal regulado e está minado de produtos de fraca qualidade, e pior do que isso, potencialmente perigosos. Existem várias marcas e produtos disponíveis que nos oferecem algumas garantias neste produto. Várias exemplos poderiam ser dados, como a Thorne Research, Gold Nutrition Clinical como marca nacional, entre outras. Mas isto não é um discurso contra suplementos alimentares em geral. Sabem bem que não é essa a minha opinião. Trata-se apenas de um alerta para a necessidade de critério na escolha do produto, e o preço não deve ser o primário.

6 comentários:

  1. Sérgio, boa tarde!
    Parabéns por mais um excelente artigo, mas que me deixa algo confusa... Do que li neste blog, percebi que tens grandes dúvidas acerca da importância do controlo dos níveis de colestorelemia, visto existir menos evidência do que pensamos, relativa/ à sua associação com as doenças cardiovasculares.
    Podes esclarecer-me?
    Obrigada!

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    1. Exactamente. Não parece tratar-se de uma associação causal e o colesterol elevado é secundário à doença. Um "sintoma", e não uma causa. Se algum tipo de lipoproteína está de facto associado directamente à aterosclerose, são as sdLDL, LDL pequenas e densas, um indicador a que os testes convencionais não são sensíveis.

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  2. Alguma coisa que recomendes para mim, que tenho 24 anos e colesterol a cerca de 300?De referir que não me dou bem com estatinas...Eu acho que os niveis de colesterol não são assim tão indicadores de doença, acho que isso é treta para as estatinas serem receitadas à parva(deve ser um dos medicamentos mais vendidos do mundo), mas de qualquer maneira tomei na mesma por insistencia de varios medicos. O meu colesterol é hereditario, nada tem a ver com a alimentação que levo (curiosamente, aqui há uns anos kd não me preocupava nada com colesterol e comia muita porcaria, foi kd tive os melhores resultados de sempre, nas primeiras analises que fiz ao colesterol lol)

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    1. Com essa idade e esses níveis de colesterol tens hipercolesteremia familiar. Desde que saibas gerir bem os verdadeiros factores de risco, os níveis de colesterol não são problemáticos por si. Há historia de doença cardiovascular na tua familia?

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    2. exacto, tenho hipercolesterolemia familiar...a minha avo(83 anos) tem e a minha mae (55 anos) também. Penso que o meu bisavo morreu de ataque de coração com cerca de 50 anos, mas também na altura não havia os cuidados que há hoje em relação a saúde...

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  3. Sérgio Veloso, tive a oportunidade de ter aulas de Bioquímica com uma das Doutoras de Bioquímica Clínica mais "mediáticas" em Portugal, tendo feito vários estudos de investigação na área, numa Universidade Inglesa, a Doutora Daniela Vaz e, segundo ela, esses estudos que provam que a hipercolesterolémia não causa aterosclerose, são anedóticos. E uma das provas disso, são os individuos que sofrem de hipercolesterolémia familiar homozigótica, que têm níveis de colesterol total plasmático, muitas vezes, a rondar os 600 mg/dL, e os de HDL a rondar perto dos zero mg/dL, morrem prematuramente, muitas vezes ainda na infância, vítimas de doença coronária obstrutiva aterosclerótica. A causa da aterogénese é, muitas vezes, multicausal, sendo que a inflamação tem o seu papel, mas não o único. É verdade, por outro lado, que é extremamente redutor avaliar apenas o tradicional perfil lipídico, com os triacilgliceróis, colesterol total, LDL-colesterol e HDL-colesterol. Electroforese das lipoproteínas, doseamento dos quilomicróns, vldl-colesterol, PCR/velocidade de hemosedimentação, fibrinogénio, hematócrito, HbA1C, apoproteínas e homocisteína também se têm mostrados biomarcadores muito pertinentes na avaliação do risco coronário e vascular aterogénico.

    Com tudo isto, é preciso ter em atenção que mais importante que os níveis de colesterol total, são os níveis de HDL. Estes sim, quando em baixo, têm um papel muito importante para o depósito de lipidos na íntima arterial.

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