1 de setembro de 2013

As estatinas, o LDL-c e o risco cardiovascular: resultados do ICAS


As estatinas são o fármaco do momento, paladinos da luta contra o malvado colesterol. Estas drogas inibem a produção endógena do colesterol e são extremamente eficazes em reduzir os seus níveis no sangue. Como tal, têm sido extensivamente utilizadas na prevenção primária ou secundária da doença cardiovascular, mesmo com o risco de disfunção mitocondrial e neurodegeneração que lhes tem sido associado nos ultimas tempos. No paradigma actual, baixar o colesterol vale o risco. Mas os paradigmas existem para serem mudados. O problema é que o colesterol parece ser um interveniente secundário, sem relação causal, na doença cardiovascular, uma patologia de carácter inflamatório. As estatinas parecem de facto reduzir o risco de eventos cardiovasculares, o que se deverá ao seu efeito anti-inflamatório já descrito, e não à redução do colesterol ou do LDL-c em si. E se esta hipótese que levanto for verdadeira, o que acontece quando damos estatinas a pessoas com doença coronária, mas com baixos níveis de LDL-c? Sim... porque esse perfil de pessoa existe no mundo real.

Esta pergunta teve resposta num estudo recente no Japão (ICAS) com indivíduos sujeitos a intervenção coronária percutânea (angioplastia) [link]. A amostra foi estratificada em 3 grupos: níveis muito baixos de LDL-c (<70 mg/dL), níveis baixos de LDL-c (70-100 mg/dL), e níveis altos de LDL-c (>100 mg/dL). Os participantes foram seguidos durante 3 anos. Os resultados revelaram que as estatinas reduziram o risco de eventos em todos os grupos, independentemente do nível de LDL-c! Ou seja, o efeito "protector" das estatinas nada tem a ver com os níveis de colesterol em si, mas com os efeitos pleiotrópicos das estatinas - provavelmente anti-inflamatório.

Embora este estudo seja muito interessante e revelador, a verdade é que tem um lado perverso. Pode ser, e será certamente, interpretado no sentido de recomendar estatinas a todos os pacientes com doença coronária, independentemente dos níveis de colesterol. Já vos falei bastante das estatinas e dos riscos associados. Considero necessária cautela na sua utilização e uma avaliação exaustiva do custo/benefício da terapia. A escolha entre redução do risco cardiovascular e o aumento do risco de diabetes e doenças neurodegenerativas não deve ser feita de animo leve.

Artigos complementares:


2 comentários:

  1. Já havia estudos anteriores com apontavam nesse sentido.

    Lembro-me de ver neste livro isso:
    http://www.wook.pt/ficha/ciencia-da-treta/a/id/2192246

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  2. Do outro lado do atlântico: http://www.youtube.com/watch?v=Wf1sVIxCPws

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