27 de setembro de 2013

Vantagem genética em atletas de potência e força


Existem variantes genéticas, polimorfismos, que parecem conferir vantagem competitiva aos atletas, pelo menos de um ponto de vista teórico. Por altura dos jogos Olímpicos de 2004 esta questão foi muito debatida devido a uma série de estudos que surgiram sobre doping genético, variantes no gene do IGF-1 e miostatina. É legítimo tirar partido dessa vantagem, mesmo sendo algo que nasce connosco? As opiniões divergiram, mas como pode ser alguém discriminado pelo seu background genético? Claro que não é eticamente correcto banir alguém da competição por ter genes mais favoráveis. Em sequência desta polémica têm surgido alguns trabalhos que associam determinados polimorfismos a performance. Por exemplo, um estudo publicado recentemente no Journal of Strength and Conditioning Research  [link] mostra-nos que existe uma prevalência bastante superior de um polimorfismo CC e CT no gene AGT, que codifica para o angiotensinogénio em atletas de potência e força, comparativamente a atletas de endurance ou não-atletas.


As variantes CC, CT e TT representam os nucleóticos presentes no DNA na posição 235 do gene do angiotensinogénio. Indivíduos CC sao homozigóticos para a variante com citosina, os CT heterozigóticos, apresentando uma cópia com citosina e outra com timina nessa posição, e os TT homozigóticos para timina. A presença de um alelo C revelou-se muito mais frequente em atletas de força e potência do que em desportistas de endurance ou pessoas sedentárias. Como tal, é provável que esta variante confira um fenótipo favorável aos desportos que requerem potência que se manifesta em melhor performance.

O angiotensinogénio é o percursor da angiotensina, um factor que regula o equilíbrio osmótico do nosso organismo, entre outras funções. A sua acção no músculo tem vindo a ser revelada nos últimos tempos, e a sinalização da angiotensina parece promover hipertrofia e um redireccionamento do fluxo sanguíneo para as fibras tipo II, de contracção rápida. Se as variantes C conferem ganho de função, é possível que isso tenha influência nas adaptações aos desportos de potência e força, dando uma vantagem competitiva aos portadores do polimorfismo.

A primeira vez que vi esta questão em debate surgiu a respeito da miostatina [link]. No ano 2000 nasceu uma criança na Alemanha que viria a ser notícia pela sua homozigotia para mutação do gene da miostatina. O bebé apresentava uma massa muscular surpreendentemente elevada e uma percentagem de gordura menor do que o normal. Para que isto ocorra, é necessário que tanto a mãe como o pai sejam portadores da mutação, levantando a suspeita de que não seja assim tão rara quanto isso. Além do mais, a mãe da criança era atleta profissional, sendo possível que a mutação em heterozigotia lhe conferisse alguma vantagem competitiva.

A opinião dos especialistas dividiu-se. Alguns acharam que não era legítimo um atleta aproveitar-se deste tipo de vantagem relativamente aos seus pares. Outros consideravam pouco ético e imoral banir alguém do desporto pelos genes com que nasceu. Esta posição parece-me a mais acertada, tendo em conta que não estamos a falar de doping genético. Não existe intenção de ganhar vantagem, e no fundo a genética é uma componente da capacidade atlética inata. Seria um caminho perigoso para discriminar atletas com base num "passport" genético que não escolheram, o que sou obviamente contra.

Aproveito para pedir a vossa opinião sobre o tema. Acham ilegítima este tipo de vantagem competitiva? Deveria existir uma genotipagem dos atletas de alta competição? Deve alguém ser discriminado com base nos seus genes?

7 comentários:

  1. Viva Sérgio. Mais um bom tema.
    Acho que ninguém deve ser discriminado pelos seus genes, pois se assim fosse, no futuro, estaríamos a excluir os quenianos das maratonas, a malta das caraíbas e América do norte das curtas distâncias e por aí fora só porque têm uma genética que os beneficia nas suas modalidades desportivas.
    Abraço

    ResponderEliminar
  2. Nem percebo bem como é que se pode colocar essa questão. Seria tão lógico como impedir as pessoas com maiores capacidades intelectuais (que poderia ser verificado, por exemplo, através do QI) de seguirem carreiras nas áreas de investigação científica. Não faz sentido nenhum.

    Cumprimentos

    ResponderEliminar
  3. Viva, como será possível alguém por isto em causa. são situações que não podem ser manipuladas, para tal há que as receber normalmente.
    Sou da opinião, tanto nesta situação como por exemplo noutras em que os próprios metabolismos criam situações que podem beneficiar certos atletas, que temos de beneficiar essas pessoas.
    Cpts,

    ResponderEliminar
  4. Acho um absurdo esse tipo de discriminação, assim como todo o tipo de discriminação baseada em informação genética. Por exemplo, informação relevante para a saúde e discriminação por parte de seguradoras ou outras entidades, isso ainda seria muito mais grave.
    De resto, aquilo que pode constituir uma vantagem genética para um certo indivíduo e num dado contexto, pode até revelar-se uma grande desvantagem num contexto completamente diferente (ou pelo menos não constituir vantagem especial).
    Se as pessoas possuem características (genéticas ou outras) que lhes dão vantagem em certas áreas, deixem-nas brilhar.

    ResponderEliminar
  5. Proibido obviamente é modificar os genes artificialmente ora então não é o objectivo é ver quem é o melhor?

    ResponderEliminar
  6. +1
    A discriminação seria anti-natura e iria promover a mediocridade genética o que, na perspectiva da selecção natural e evolução de uma espécie é contra-producente.

    ResponderEliminar
  7. Toda a discriminação que proíbe é danosa, irracional, e não-sustentável a longo prazo.
    No entanto, eu aceitaria de bom grado um tipo de discriminação mais racional: tal como não faz sentido deixar uma superbike de 500cc competir numa corrida de 250cc, também há razão ética para não achar justa a competição de pessoas "geneticamente sobredotadas" na mesma situação que outros atletas que tiveram menos sorte na "lotaria genética". Portanto proponho que se planeie, para um futuro a médio prazo, um sistema com "níveis" de "dotação genética"... não para restringir, mas para garantir um pouco mais de justiça de base na competição. Aí sim, "os melhores" tornar-se-iam evidentes, pois iriam vencer os seus pares genéticos. No fundo, já o fazemos na actualidade ao separar homens e mulheres em alguns desportos: são pessoas nas mesma, apenas distintas pelo seu genótipo que resulta num fenótipo com capacidades de desempenho diferentes. Porque não então alargar essa distinção sub-categorização?...
    Embora, na realidade, eu seja mais favorável ao caminho contrário: zero segregação genética, incluindo homens e mulheres lado-a-lado em todas as modalidades. :)

    ResponderEliminar