8 de outubro de 2013

A divulgação científica e as revistas de acesso livre


Um artigo do jornal Público [link] sobre fraudes nos artigos científicos tem sido muito partilhado nas redes sociais, embora na verdade isto seja tudo menos novo e há anos que é debatido entre a comunidade científica. Um investigador de Harvard "fabricou" um artigo científico com resultados falsos, totalmente inventado e nem sequer com grande mestria, que submeteu a publicação em várias revistas Open Access. Estas publicações são de acesso livre ao público, disponibilizando os artigos gratuitamente. Isto até parece um acto nobre... Ciência ao alcance de todos, e de borla. Mas das 304 revistas a que o artigo foi submetido, 157 aceitaram-no para publicação sem questionar. O que se passa aqui?


O verdadeiro problema não se prende com os padrões de qualidade das revistas Open Access, mas sim com a sua fonte de financiamento. Na maioria dos casos, é o autor que paga um determinado valor para que o seu artigo seja publicado de forma livre, podendo ser acedido por mais gente. Portanto, essas revistas são financiadas pelo volume de artigos publicados e quantos mais, maior o rendimento. Óbvio que este sistema é perverso e facilmente corruptível. Esta questão já foi levantada há muitos anos a respeito dos abusos das companhias farmacêuticas, e até de suplementos alimentares. Enquanto que as primeiras têm um poder financeiro que lhes permite manter artigos de acesso livre em revistas de renome, pagando a franquia que geralmente é exigida ao autor, as empresas de suplementos financiam estudos que são publicados em revistas de acesso livre, mas cujo rigor do escrutínio deixa muito a desejar.

Bem sei que todos nós gostaríamos de ter acesso à ciência, e idealmente o conhecimento deveria estar ao alcance de todos os que o procuram. Mas a verdade é que isso é muito difícil sem se desvirtuar pela necessidades de facturação. As revistas científicas financiam-se normalmente através das subscrições institucionais ou individuais, e este sistema é de facto o mais seguro na preservação da qualidade e rigor. Quando lemos um artigo open access, o espirito crítico deve ser redobrado, embora existam obviamente publicações fidedignas, como é exemplo a PLoS. A ciência tem muito que se lhe diga, e como produto do Homem, padece de todas as "imperfeições" próprias da sociedade.


3 comentários:

  1. Tem toda a razão Sérgio. Eu próprio (investigador) sou "assediado" diariamente por editoras de revistas Open Access. Já rejeitei artigos para grandes editoras que acabam por ser encontradas em revistas Open Access. A ter em conta.

    ResponderEliminar
  2. Aqui fica um bom exemplo de que o mesmo acontece em revistas de renome internacional e de acesso pago e fechado, Neste caso foi a Science.
    http://www.michaeleisen.org/blog/?p=1439

    ResponderEliminar
  3. Em portugal também acontece muito. Muitas universidades para continuar a ter fundos de investigação tornam-se maquinas de fazer papers, sendo muitos deles , senão a maior parte deles lixo, muitas vezes com valores adulterados para criar impacto.

    ResponderEliminar