3 de outubro de 2013

O papel do fígado na resistência à insulina


Continuando a falar-vos de resistência à insulina, é importante entender a importância que o fígado desempenha em todo este processo. Trata-se do órgão central de todo o metabolismo, sejam hidratos de carbono, lípidos, proteínas, hormonas, fármacos, e até toxinas. Embora, numa perspectiva temporal, não seja o primeiro local onde a resistência à insulina se instala, a verdade é que com a progressão e agravamento da disfunção também ele acaba por sofrer. As consequências podem ir desde uma produção excessiva de glicose, dislipidémias, e eventualmente até a algum grau de esteatose hepática (fígado gordo) que compromete a integridade e função do órgão. 


A própria localização anatómica do fígado o torna susceptível às consequências da obesidade visceral. O tecido adiposo intra-abdominal liberta citocinas e ácidos gordos para a circulação que drena directamente para a veia porta. Como tal, o fígado recebe grandes concentrações destes compostos que geram inflamação e resistência à insulina. Sem me querer alongar na explicação, que já tentei dar em maior pormenor noutros artigos, quero apenas mostrar-vos como marcadores de lesão hepática podem ser bons indicadores do controlo da glicemia e sensibilidade à insulina.

Pelo menos isto é o que nos indica um estudo publicado recentemente [link], revelando que as enzimas hepáticas AST, ALT e GGT correlacionam-se de forma mais robusta com marcadores da homeostase glicémica: glicemia em jejum, HbA1c e HOMA-IR. Estas enzimas aumentam no sangue em situações de stress hepático e dano estrutural às células que compõe o tecido. Nesse sentido, a resistência à insulina compromete a função do fígado, o que se traduz em níveis mais elevados de AST, ALT, e GGT.

Não é por acaso que estas enzimas devem fazer parte de qualquer painel básico de análises clínicas. Dão-nos uma preciosa informação sobre o metabolismo e estado do fígado, um órgão cuja disfunção se reflete a vários níveis, nomeadamente:

- Desregulação hormonal, uma vez que o fígado é responsável pelo metabolismo de várias hormonas
- Perfil lipídico alterado, com aumento dos triglicéridos, LDL e redução das HDL
- Hiperglicemia por menor inibição da gluconeogénese
- Acumulação de toxinas ambientais ou derivadas do metabolismo de fármacos

Como eu costumo dizer nas minhas aulas, enquanto a resistência à insulina é exclusiva do músculo e tecido adiposo, a coisa resolve-se bem. Mas quando chega ao fígado (e cérebro), a história é outra. Aqui começam os problemas sérios e toda uma desregulação sistémica que culmina na nossa conhecida Síndrome Metabólica. Não é então de estranhar que muitos dos compostos bioactivos que exibem um efeito positivo a nível da resistência à insulina sejam potenciadores do metabolismo hepático. Falo por exemplo da silimarina, NAC, e ácido alfa-lipóico. Mas existem também alimentos capazes de estimular o normal funcionamento do fígado, e exemplos são os nossos conhecidos abacate, brócolos (brássicas em geral), frutos vermelhos, entre outros.

Concluindo, se quer um metabolismo saudável, é bom que garanta um fígado saudável. E isto passa não só por se manter magro, mas também por reduzir a exposição a toxinas, xenobióticos, fármacos, álcool, e outros agentes de stress hepático. A alimentação desempenha igualmente aqui um papel central, tanto para o bom como para o mau. Pode ser o seu maior aliado ou o mais lento dos venenos. Falaremos mais disso num outro artigo...

2 comentários:

  1. Depois de uma ecografia abdominal, descobri que tinha esteatose hepática. As outras análises mostram um colesterol total de 136, com resultados muito aceitáveis de triglicéridos, LDL e HDL. De facto, o perfil lipídico é ressalta à primeira vista como exemplar. A glicémia também é normal.

    Acresce ainda a prática de crossfit e um passado de de exercício físico diário e regular ao longo do ano. Hábitos estes instalados desde a infância.

    O reverso da medalha, a nível clínico, é um ligeiro aumento de uma das 3 principais enzimas do fígado (ainda que seja um valor pouco distinto 4 a 5 unidades), mas sugerindo que o fígado não está a 100%.
    Julgo que a alimentação seja o problema, porque sempre abusei nas calorias, apesar do meu perfíl lipídico ser bom. Parece também que a glicose ingerida transforma-se em frutose endógena e é isto que rebenta com o fígado.

    Tenho 14% de gordura corporal, o que não é propriamente correspondente a um indivíduo de 40 anos obeso.

    Decidi partilhar estes dados pessoais, uma vez que "ilustram" alguma coisa do que tem escrito. Se quiser acrecentar algum comentário ao que escrevi, é sempre um prazer ler.

    Cumprimentos

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  2. Desconfiando-se de resistência à insulina, é aconselhável, então, a ingestão de suplementos de ácido alfa-lipóico?

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