19 de maio de 2014

Caso de estudo: Low-carb prolongado e perfil de distribuição de gordura


Para primeiro artigo após este longo tempo de ausência decidi trazer-vos um "caso clínico", ou mais propriamente um caso de estudo. Como sabem, na Metabolic Edge eu e a equipa que comigo colabora acompanhamos pessoas com base num diagnóstico metabólico prévio e uma avaliação antropométrica completa. Muitas vezes surgem situações de um aparente "metabolismo estragado", e quando esta é a percepção do cliente, muitas vezes está certo. E em grande parte dos casos, este "dano" surge uma restrição demasiado severa em hidratos de carbono, aliado a exercício físico intenso e frequente. E o que fazer para corrigir? Como fazer o diagnóstico? É sobre isto que iremos falar um pouco...


O José (nome fictício obviamente) procurou ajuda pois não está satisfeito com tantos anos de esforço e dedicação, quer ao treino quer à alimentação. É um homem muito rigoroso e que segue uma dieta restrita há vários anos. É também de há muitos anos que treina, agora com uma frequência de 5 vezes por semana, essencialmente musculação, e cada vez mais sente dificuldade em ganhar massa muscular, aquele que é o seu principal objectivo. Além disso, aquela gordura abdominal e na base das costas ("love handles") teima em não desaparecer, mesmo com toda a restrição em hidratos de carbono que faz há muito tempo. Ora, o problema se calhar é mesmo esse...

Relativamente à dieta, este é um dia típico do José:


Pequeno-almoço (8:00)

3 ovos + 2 fatias de fiambre de aves + 2 fatias de bacon
1 chav café de oleaginosas

Meio da manha (10:30)
40 g de oleaginosas
Por vezes uma peça de fruta


Almoço (13:00)

Carne ou peixe sem limite de quantidade
Legumes temperados com azeite


Lanche (17:00)

Oleaginosas ou chocolate negro
Gelatina light ou uma barrita Atkins
Fiambre de aves ou salmão fumado

Treino (18:00)

Pós-treino (19:30)
30 g de whey protein
5 g de glutamina
3 g de BCAAs

Jantar (21:00)
Carne ou peixe sem limite de quantidade
Legumes temperados com azeite

Ceia (0:00)
40 g de caseína com água

A nível de suplementação, para além dos descritos também toma ómega-3 (4 g de EPA+DHA por dia), ZMA ao deitar, um multivitamínico barato muito comum em lojas de suplementação desportiva, e um volumizador pré-treino que vai alternando.

A avaliação física inicial indica-nos os seguintes valores:

Idade: 34
Altura: 1,76 m
Peso: 73,4 Kg
%MG bioimpedância: 18,9%
Perímetro abdominal: 88,7
Perímetro da cintura: 79,8

Pregas cutâneas:
Abdominal: 23
Supra-ilíaca: 13
Subscapular: 12
Crural: 18
Tricipital: 13
Bicipital: 6
Peitoral: 10
Axilar: 13
Lower-back: 17
Este perfil ilustra um homem com peso normal mas com gordura excessiva e de distribuição indicativa de um desequilíbrio metabólico/hormonal. Os valores das pregas, nomeadamente a abdominal, sugere uma exposição excessiva a cortisol aliada a baixos níveis de testosterona. Isto é reforçado pela espessura da prega crural e tricipital, indicativa de uma alguma predominância estrogénica. A acumulação de gordura na base das costas poderá também indicar um desequilíbrio hormonal a nível do cortisol, testosterona, estrogénicos, e uma elevada sensibilidade à progesterona. Tendo também em conta a má qualidade de sono e fadiga que o José vos relatou, este quadro tem uma probabilidade elevada de ser real.

As pregas são interessantes para levantar hipóteses, mas a verdade é que tudo deverá ser confirmado por análises, que foram feitas:
Colesterol total: 219 mg/dL
HDL-c: 48 mg/dL
TSH: 2,1
T4 livre: 1,4 ng/dL
T3 livre: 2,3 pg/mL
Cortisol basal: 19,9 mcg/dL
Cortisol urina de 24h: 85 mcg/24h
Testosterona total: 5,85 ng/mL (2,5-8,4)
Testosterona livre: 6,1 pg/mL (7,2-23)
17beta-estradiol: 41,5 (7,6-42,6)
SHBG: 55,9 nmol/L (10-57)

Dispensei apresentar-vos outros valores pouco relevantes para o que tratamos agora. Apesar dos valores das hormonas tiroideias estarem sub-óptimas tendo em conta o que já sabemos sobre o efeito da privação energética prolongada neste eixo [link], o problema central não parece estar aí. Tal como esperado, a exposição diária ao cortisol é elevada (cortisol basal apenas um pouco alto, mas muito alto na urina de 24h). Sabe-se que a privação de sono à noite está relacionada com altos níveis de cortisol ao final do dia, o que parece ser aqui verdade. Além disso a própria restrição em hidratos de carbono e treino frequente podem exacerbar essa situação [link]. Para mais, o rácio cortisol/testosterona livre é bem desfavorável, favorecendo aquela gordura abdominal resistente que tanto perturba o José.

Relativamente ao equilibrio testosterona/estrogénio, também aqui temos algo a dizer. Apesar nos níveis normais de testosterona total, a fracção livre, portanto com acção no organismo, está bastante baixa. A testosterona circula ligada a uma proteína, a SHBG. Nesta forma a hormona está retida e não tem acção sobre os tecidos alvo. Como podem verificar, os níveis de SHBG estão bastante altos, o que diminui a relação testosterona livre/testosterona total. Um dos factores que leva ao aumento da SHBG são os estrogénios, que no caso do José estão elevados. Sabe-se que o cortisol aumenta a actividade da aromatase, uma enzima que converte a testosterona em estrogénios, e que o tecido adiposo é um local de elevada actividade desta aromatase. Por seu lado, a insulina reduz a SHBG, mas lembrem-se que ele segue uma dieta baixa em hidratos de carbono há muito tempo e que são de esperar níveis de exposição à insulina relativamente baixos. Mais um factor a puxá-la para cima...

Já temos um diagnóstico traçado, e uma situação que terá de ser corrigida. Como? Ora, isso será um próximo artigo para não me alongar mais, e para vos deixar um pouco na expectativa ;). Não só serão apresentadas estratégias como também a evolução recente do caso, bem positiva por sinal. O nosso corpo dá-nos todos os sinais que precisamos, só temos de os entender e aprofundar com as ferramentas que a ciência nos disponibiliza. "Metabolismos estragados" existem, mas são poucos os que não podem ser corrigidos, leve o tempo que levar.

12 comentários:

  1. Grande artigo Sérgio. Revejo-me em certa forma, no que aqui foi referido.
    Estou ansioso para colocar o próximo artigo, sobre a solução para esta situação.

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  2. Olá Sérgio,

    Para quando uma análise do Intermittent Fasting, que ao que parece estar surgir entre nós.

    Forte Abraço e Parabéns pelo Excelente Trabalho
    Filipe Martins

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  3. Em primeiro lugar tenho pena deste senhor não se alimentar com conselhos de um verdadeiro profissional, chamado nutricionista, em segundo tenho pena do dinheiro gasto em tantos produtos extras que só fazem mal a saúde... Não me surpreende as análises, surpreende-me terem escolhido este exemplo... Sinceramente carboidratos não lhe faltam de certeza :(

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    1. E foi meu caro... Basta dar uma olhada na equipa...

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    2. Que comentário tão infeliz, TAS! Quem segue este Blog sabe perfeitamente o quão profissional é o Sérgio. E isto escrito por um Nutricionista. Bruno R.

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  4. Muitos parabéns pelo artigo! :) eu ligado a suplementação e incentivo de atividade física à comunidade, gosto sempre de perceber estas situações. Costumo ter formação com o Dr. David Heber (grande nutricionista a nível mundial), Dr. Louis Ignarro (prémio Nobel da Medicina) e vou percebendo certas coisas, mas sem dúvida que é sempre bom pesquisarmos e sabermos mais coisas :)
    Obrigado!

    Um abraço.
    Se quiserem dar uma olhada na minha página: www.facebook.com/my24h é ótima suplementação para ajudar a suprir as carências nutritivas que a nossa alimentação tem cada vez mais pelo facto de ser tudo cada vez mais processado (sorte os que cultivam e sabem o que comem num campo longe de carros).

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  5. Prezado Sérgio,

    Vai ser muito interessante este caso! Estava sentindo falta das postagens...

    Ansioso para ler a continuação.

    Grande abraço!
    Rennan, SP-Brasil

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  6. Grande artigo Sérgio.
    Revejo-me totalmente neste caso.
    Estou ansioso para ler o próximo artigo e a solução para estes problemas.
    Obrigado, abraço

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  7. Apenas uma diferença Sérgio, no meu caso nunca fiz uma restrição tão severa dos hidratos de carbono...

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  8. Eu já experimentei várias vezes restringir os HC durante longos períodos, e senti-me um bocado como o "José", tenho pena de não ter feito analises especificas nessa altura mas dá para sentir a testo a cair e os níveis e2 a subir!
    Existe alguma relação com o CK? Ultimamente tenho andado com eles bem elevados... +15mil e nenhum médico me consegue explicar porquê.

    Abraço!

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    1. Boa noite. Esses níveis de CK são indicativos de um grau de destruição muscular muito elevado. Rabdomiólise. Precisa de ser visto...

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  9. Boa! Precisava mesmo deste artigo, estou numa situação idêntica.
    Mal posso esperar pelo próximo para poder equilibrar o meu organismo!

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