19 de outubro de 2014

Massa muscular como preditor de longevidade


Não é para estar a bater mais no coitado do Índice de Massa Corporal como indicador do que quer que seja, mas como indicador de longevidade também não parece servir para nada. Sem surpresa claro, este foi o resultado de um estudo publicado recentemente no American Journal of Medicine [link]. Mas o que também não é surpresa, pelo menos para quem segue o blogue com alguma regularidade, é o indicador que se revelou: o Índice de Massa Muscular (massa muscular/altura^2).

De um modo geral, o IMC não é uma ferramenta útil para avaliar o estado de saúde de um idoso, nem de ninguém na verdade. É totalmente cego à composição corporal de um indivíduo. Mas numa faixa etária assolada por doenças altamente catabólicas, inflamatórias, e sarcopenia, a manutenção da massa magra é o privilégio de um envelhecimento saudável. A perda de massa muscular vem de mãos dadas à doença, mas também ao sedentarismo ou exercício físico desajustado a esse objectivo. Não é com cominadas que esperam consegui-lo... 

O músculo é o seguro de um metabolismo eficiente e saudável. Na verdade, é mais provável que de um modo geral a perda de massa muscular seja consequência da doença, do que o contrário. No entanto, já existem evidências interessantes acerca dos benefícios fisiológicos do músculo, como por exemplo na gestão da glicemia e prevenção de fracturas. Para mim é mais do que suficiente para afirmar que a preservação da massa magra deve ser central em qualquer programa de intervenção para idosos mais saudáveis.

12 de outubro de 2014

Consumo de café e a função hepática


O café é um daqueles alimentos, se é que lhe podemos chamar isso, que se odeia ou se adora. A verdade é que não são poucos os trabalhos a surgir um efeito protector aos mais diversos níveis, mas que na verdade não se deverá à cafeína mas sim a outros componentes presentes no café, como o ácido clorogénico por exemplo. Um desses efeitos positivos parece ser a nível do fígado, associando-o a uma redução de indicadores da função hepática, como as enzimas ALT, AST, ALP, e GGT, efeito este verificado tanto para o café como para o descafeinado. Estes são os resultados de um estudo agora publicado na revista Hepatology [REF],

Se consideramos o elevado teor de polifenois antioxidantes presentes no café, não é estranho que de facto exista uma relação causal entre o seu consumo e a função hepática de desintoxicação. No entanto, não posso deixar de sublinhar que se trata de mais um estudo de correlação, e que associação não implica causalidade por mais que tente polir a coisa. Por exemplo, o maior consumo de café também pode estar associado a um menor consumo de refrigerantes e álcool. O que será protector? Consumir mais café ou menos tóxicos? Impossível saber em estudos deste tipo, mesmo existindo uma plausibilidade biológica por detrás. Mas a verdade é que no enquadramento da dieta pobre e triste do Mundo Moderno, é das principais fontes de antioxidantes  que temos de uma forma consistente. Vamos retirar? Bem... Depende do caso, e do contexto.

Existe uma grande controvérsia relativamente ao consumo de café nos dias que correm, com alguns estudos a sugerir um efeito benéfico e outros a atestar os seus malefícios. Um bom exemplo da forma errada como se tem comunicado a ciência da nutrição, uma área tão exposta ao sensacionalismo e às manchetes sonantes que vendem revistas. Hoje os ovos fazem mal ao coração. Amanhã aumentam o HDL-c e reduzem o risco cardiovascular. O café ontem aumentava o risco de diabetes, hoje reduz a incidência e ainda protege o fígado. Qual dos estudos está errado? Provavelmente nenhum... Tudo depende de como interpretamos os resultados. A ciência gera dados, e nós interpretamos, com os nossos preconceitos e crenças.