20 de janeiro de 2015

Insulina - amigo ou vilão? Efeito a nível do tecido adiposo castanho


Muito temos ouvido sobre os efeitos nefastos da insulina. A insulina engorda... A insulina inflama... A insulina isto e aquilo, etc, etc. Apesar de haver um traço de verdade em tudo isto, a insulina está longe de ser uma hormona que trabalha contra nós. Antes pelo contrário. Os problemas surgem é quando ela não funciona devidamente, o que infelizmente é bem comum hoje em dia. Aquilo a que chamamos resistência à insulina. Quando tudo funciona bem, algumas das suas acções são precisamente promover saciedade, e também o gasto de mais energia.


A insulina é uma hormona anabólica, e isto é verdade tanto para o músculo como para o tecido adiposo. E aqui quando falamos em anabolismo, falamos em ganhar gordura. Uma das funções da insulina é precisamente reservar os ácidos gordos dentro dos adipócitos. Não é exactamente o que precisamos. Mas como é regra na Biologia Humana, a dose faz o veneno. Se estivermos expostos a níveis cronicamente elevados de insulina, então temos problemas. Se tudo funcionar como devido, tudo ok mesmo comendo os nossos hidratos de carbono. Mas é verdade também que existe uma capacidade inter-individual muito variável a lidar com a glicose, e isso é ditado pela nossa genética, epigenética, metabolismo, e factores ambientais que funcionam como triggers de processos deletérios já subjacentes, ou não. Mais uma vez, cada caso é um caos [caso].

Mas escrevo este artigo por outro motivo. Um artigo publicado recentemente na prestigiada revista Cell (pelo menos para quem como é "das bioquímicas" e dessas coisas que são as células) mostra-nos que a insulina actua também a nível do sistema nervoso central no sentido de estimular a conversão de células gordas brancas em castanhas. E o que são estas células? Enquanto o tecido adiposo branco é essencialmente um local de reserva de energia (e secreção de adipocinas como a leptina), o tecido adiposo castanho é um local de gasto de energia. Durante muitos anos se pensou que a quantidade de tecido adiposo castanho num adulto era negligenciavel, e que praticamente todo era perdido após o período neonatal ficando resumindo a uma região confinada na escapula. No entanto, sabendo-se hoje que apenas 50 g podem aumentar o gasto energético diário em 20%, a palavra "negligenciável" foi posta de parte e a investigação de ponta no tratamento da obesidade centra-se aqui - transformação do tecido adiposo branco em castanho, ou na verdade numa forma com características intermédias. Estima-se que 1 em cada 400 adipócitos possam ter estas características.

Que a leptina fazia isto já se sabia, mas a mesma acção não estava ainda caracterizada para a insulina. Mas que estranho... Uma hormona que engorda faz com que gastemos mais energia. Não faz sentido! Se calhar faz se deixarmos esse paradigma de lado. A insulina, a trabalhar devidamente, funciona a nosso favor e não contra nós. Mantém a glicemia estável, promove saciedade, e aumenta o dispêndio energético. Tal como a leptina, a insulina é de alguma forma também um sensor das reservas de energia. A leptina das reservas existentes, a insulina das reservas futuras. Quanto tudo isto funciona bem, ambas actuam em concerto como um lipostato, um mecanismo que mantém o nosso peso corporal estável ao longo do tempo - o chamado set-point. O problema é quando este set-point se desloca para onde não queremos...

Uma das principais razões para a insulina não funcionar de forma eficiente é a resistência que se gera. A inflamação é um dos principais processos associados à deterioração da função da insulina, se não o qual onde todos culminam. Um deles é o chamado stress de retículo endoplasmático, um nome pomposo para um processo degenerativo que se inicia quando uma célula não dá conta do recado. Quando as solicitações são mais do que a capacidade de resposta. Um pouco como o que acontece conosco. Entramos em crash, tal como a célula. Um dos intermediários deste "crash" é uma proteína chamada PTP1B (fosfatase de tirosina), identificada neste estudo como o bloqueador da acção da insulina a nível do sistema nervoso central. Ficam abertas portas para novas respostas terapêuticas, farmacológicas ou não. 

A PTP1B actua desactivando a cascata de fosforilação em resposta à insulina. Imaginem a hormona a ligar ao receptor, e um mecanismo a montante que termina essa sinalização. Como um furo na canalização que torna o fluxo mais lento, que resulta numa resposta atenuada e menos eficiente. Tendo em conta que a curcumina (açafrão) [link], gingerol (gengibre), e extrato de canela [link] são conhecidos inibidores da PTP1B, trata-se de mais um mecanismo pelo qual estes compostos podem ajudar na resistência à insulina. Mas há mais... A actividade da PTP1B é altamente regulada por mecanismos redox, e a oxidação da PTP1B inibe a sua acção. Por outras palavras, a oxidação é necessária para controlar a sua actividade, e é por isto que a toma de anti-oxidantes pode, em alguns casos e doses, provocar resistência à insulina [link]. O Selénio, um antioxidante (glutationa peroxidase) bem conhecido, pode aumentar a actividade da PTP1B. Isto não parece bom, mas leva-nos ao conceito de hormese. Nem sempre mais é melhor, e em Metabolismo isto aplica-se como regra geral. Isto fica para outro artigo. Devemos administrar antioxidantes exógenos em grandes quantidades ou garantir apenas que o nosso sistema antioxidante funciona devidamente?

Resumindo, a insulina não é um vilão. Ela ajuda-nos quando a ajudamos a ela, e quando não lhe pedimos demais. É essencial para estimular processos que aumentam o dispêndio energético e promovem saciedade. Os problemas começam quando a resistência à insulina se instala, e aqui a nutrição tem uma palavra a dizer, se não a mais importante. Actua não só na prevenção mas também no tratamento, quando necessário. Se tratarmos bem das nossas hormonas, elas tratam bem de nós.


Garron T. Dodd, Stephanie Decherf, Kim Loh, Stephanie E. Simonds, Florian Wiede, Eglantine Balland, Troy L. Merry, Heike Münzberg, Zhong-Yin Zhang, Barbara B. Kahn, Benjamin G. Neel, Kendra K. Bence, Zane B. Andrews, Michael A. Cowley, Tony Tiganis. Leptin and Insulin Act on POMC Neurons to Promote the Browning of White FatCell, 2015; 160 (1-2): 88

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