27 de janeiro de 2015

Uma abordagem funcional à nutrição



Na próxima 6ª feira começa a 3ª Edição do Curso Avançado de Nutrição Clínica, desta vez sob o mote "Uma Visão Funcional e Personalizada" [link]. Como sabem, tenho a honra e o prazer de fazer parte do corpo docente como colaborador de longa data da Nutriscience. Este ano cabe-me a mim abrir o curso com uma introdução à Nutrição Funcional. E no fundo, o que é isto da Nutrição Funcional?


Não é possível perceber o que é a Nutrição Funcional sem abordar as suas origens, numa corrente médica que surgiu nos EUA e apelidada de "Medicina Funcional". E o que se trata? Como diz Mark Hyman, talvez um dos principais responsáveis pela Medicina Funcional como a vemos hoje, não é mais do que o contrário de Medicina Disfuncional, a prática convencional centrada na doença e não no doente. Focada na supressão dos sintomas e não na causa. Para um especialista em Medicina ou Nutrição Funcional, a doença não é mais do que a consequência de um processo deletério ou polimorfismo genético, e este sim é o foco da intervenção. É uma manifestação a montante do problema real, numa simples relação causa efeito. A hipercolesteremia será causada pela falta de estatinas? A hiperactividade pela falta de ritalina? A diabetes pela falta de metformina? A Medicina Funcional procura as causas e este sim é o alvo da intervenção. Colesterol alto? É a sua dieta? É a sua genética? É o seu estilo de vida? É a sua tiróide? É inflamação? São carências nutricionais? Será mesmo um problema? A depressão e fadiga são uma manifestações da falta de inibidores da recaptação de serotonina? Ou poderá ser uma disfunção das suas adrenais? Desequilíbrio de neurotransmissores?

Encontrar a causa para um problema nem sempre é fácil, para mais quando a tendência é a especialização. Ou temos super-generalistas, ou super-especialistas. Mas todos os organismos vivos são sistemas integrados sem dissociação. Muitas vezes não é possível abordar um problema se não olharmos para o paciente como um todo, e não como um valor fora ou dentro do normal. A individualidade é um dos princípios fundamentais da Nutrição Funcional.

Individualidade bioquímica: cada indivíduo é único no seu perfil metabólico, ditado pela interacção entre o ambiente/socialização, e a sua genética. Este conceito foi primeiramente introduzido por Roger Williams na década de 50 para definir "a variabilidade genética na susceptibilidade à doença, necessidades nutricionais, e resposta a drogas em pessoas saudáveis". Hoje é um principio básico da personalização aplicada à clínica. 
Interligação de todos os factores fisiológicos: todos os seres vivos são sistemas integrados e funcionam como um todo, e não como a simples soma das partes. Qualquer abordagem de diagnóstico ou terapêutica deve ter isso em consideração. 
Equilíbrio dinâmico de factores internos e externos: os nossos genes e características metabólicas estão em constante interacção com o meio, capaz de moldar a forma como se manifestam. 
Saúde como vitalidade: ser saudável é mais do que estar vivo. É viver os nossos anos com vitalidade e prazer. 
Centrado no doente: a doença não é mais do que a manifestação de uma disfunção provocada por desequilíbrios na relação entre o indivíduo e o meio. 
Baseado em ciência: a Medicina Funcional não é um ramo esotérico da medicina. É baseada em ciência sólida, e em bom-senso. Já que nunca foram efectuados estudos que provem a eficácia dos paraquedas na prevenção de lesão por impacto no solo, podemos afirmar que não são eficazes? Às vezes um case-study, ou bom senso, são suficientes.

O diagnóstico em Medicina Funcional baseia-se nos sintomas, historial, padrões do paciente, e em análises clínicas prescritas com base nos primeiros. No entanto, de acordo com o principio da individualidade, as pessoas são mais do que valores de referência, extrapolações estatísticas para a média da população considerado "o normal". Mas a média de uma população doente pode não ser o ideal para si (pelo menos para mim não é certamente). Está longe de ser "óptimo". A sensibilidade para entender isto passa pela experiência e por ouvir o doente. Reconhecer os sinais manifestados. Abordar a função, e não abafar a disfunção.

A Nutrição Funcional nasce deste principio. Aliás, é um dos pilares fundamentais da Medicina Funcional. Tendo em conta que a maior parte das doenças crónicas tem uma componente majoritária no estilo de vida, a dieta é uma ferramenta importante e muitas vezes na etiologia da disfunção subjacente à doença. Como tal, a Nutrição Funcional responde à necessidade de intervir nos factores causais da patologia e resolver o problema pela raiz. Não de apenas aliviar os sintomas.

O conceito de Nutrição Funcional como metodologia clínica deve-se em grande parte ao meu amigo e colega Gabriel de Carvalho, nutricionista e um dos professores deste curso, que introduziu o conceito primeiramente no Brasil e onde tem crescido a olhos vistos. Tive oportunidade de o verificar durante o meu ciclo de palestras pelo Brasil. Trata-se de um ramo destacado da Medicina Funcional, mas com uma abordagem em tudo semelhante e aplicada à nutrição e estilo de vida.

O que se espera de um Nutricionista desta linha? Que competências deve ter?

Antropometria: identificar características morfológicas associadas a perfis de risco e disfunções hormonais/metabólicas. 
Exame físico: identificar sinais relacionados com desequilíbrios nutricionais e disfuncões metabólicas. O que significam manchas brancas horizontais nas unhas? Cabelo e unhas quebradiças? Eczema? Mixedema? Olheiras? Todos estes sinais, e outros, podem ser de grande utilidade no diagnóstico nutricional, que começa no momento em que o paciente entra no consultório. Quando lhe põe os olhos em cima.
Biomarcadores: dominar marcadores e análises funcionais para diagnóstico de desequilíbrios fisiológicos. Identificar carências nutricionais, disfunções hormonais, sinais de inflamação crónica,  deficiências nos mecanismos de detoxificação, entre outros 
Avaliação: Análise de padrões alimentares, cravings, alimentos frequentes, associações a stress, etc. 
Conhecimento: manter-se actualizado sobre os desenvolvimentos científicos. A ciência não pára e é fácil perder o comboio. 
Tratamento: como intervir após diagnóstico, a nível nutricional e modificações no estilo de vida. A suplementação é por vezes necessária, e aqui é crítico saber escolher os produtos e dosear correctamente.

Estas são as competências que se espera serem adquiridas no curso, do qual me orgulho fazer parte como professor. É uma honra para mim estar lado a lado com alguns dos que considero os melhores  na área da nutrição, medicina, e outras. Entre eles a Drª Filomena Trindade, médica e professora no Institute of Funcional Medicine, a única portuguesa a integrar o corpo docente do IFN. Como especialista em metabolismo e biologia celular, assumo o compromisso de transpor uma área complexa para a prática clínica, sempre centrado na função, o mote central do curso. Não é possível abordar evento clinico sem entender o processo que lhe deu origem. E isto é bioquímica metabólica, a base da Nutrição Funcional. Já na 6ª feira, comigo e com o meu amigo Marcelo Rogero, um nutricionista de topo e provavelmente o melhor professor que conheço.


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