27 de outubro de 2015

Carne vermelha, processada, e o risco de cancro


Pois então as carnes processadas "causam" cancro, e ingerir 50 g destes alimentos por dia aumentam o risco de cancro colorectal em 18%. Os Media até vão mais longe e quiseram estender à carne vermelha em geral. 

Ora vamos a uns factos:

1 - Então ingerir 50 g de carnes processadas por dia aumentam o risco de cancro colorectal em 18%. 100 g de carne vermelha em 17%. Lamento informar que ter um IMC superior a 30, portanto ser obeso, aumenta o risco em 84% nos homens e 46% nas mulheres. Isto se formos Americanos. O Risco Relativo impressiona sempre tanto... E estarmos vivos é o maior factor de risco para morrer. A estatística é uma disciplina que me deixa maravilhado. Mas para uma associação robusta em epidemiologia que "sugira" causalidade, sujeita a outro tipo de análise posterior, qualquer coisa abaixo dos 2-3 é pouco. E aqui estamos nós a discutir uns meros 1,18.

2 - Associação não significa causalidade. O consumo de gelados está associado a maior incidência de ataques de tubarões e assassinatos na Austrália. O consumo de chocolate ao prémio Nobel. So What? São apenas duas tendências no mesmo sentido que podem ser afectadas por outras variáveis. Por exemplo, o consumo de carne vermelha está associado a menor escolaridade, sedentarismo, tabagismo, e maior aporte calórico. Qual destes factores está de facto a pesar nesta associação?

3 - A grande maioria dos estudos a mostrar uma associação positiva entre o consumo de carne vermelha e cancro são estudos retrospectivos caso-controlo. Estudos prospectivos, que acompanham uma coorte ao longo dos anos, têm falhado em revelar uma associação positiva, pois são mais potentes em excluir variáveis secundárias. E a grande maioria não distingue carne vermelha de processada. Vai tudo para o mesmo saco. E na verdade, os vegetarianos não têm menor risco de cancro colorectal comparativamente aos que comem carne. É o que nos diz o EPIC, um estudo prospectivo de grande escala em curso na Europa enquanto se debate a carne e o cancro.

4 - A maior parte dos estudos a mostrar associação são Americanos, e na Eupora e Austrália não parece existir essa tendência. Talvez pela cultura americana do "churrasco" e todo um conjunto de maus hábitos associados, tipo acompanhar com 1 L de coca-cola.

5 - Não existem ensaios clínicos que possam estabelecer essa relação directa. O delineamento experimental de um estudo deste tipo seria estupidamente complexo, dispendioso, e eticamente questionável. E estudos em ratinhos... por favor... Os pobres animais são vegetarianos, ou melhor dizendo, omnívoros oportunistas. Não comem carne na sua dieta "natural", muito menos carne vermelha.

6 - De facto podem ser gerados alguns compostos carcinogénicos durante o processo de confecção da carne, quando "a seco". No entanto, é possível minimizar este efeito - coser, estufar, processar a baixa temperatura, e marinar. E os nitritos por si não são cancerígenos. Estávamos arrumados cada vez que comíamos espinafres. Podem sim reagir com outros compostos e formar os NOCs, esses sim com efeito mutagénico (ver imagem). E na verdade, a nossa flora intestinal consegue lidar com grande parte deles. Talvez o grande problema seja mesmo a disbiose tão comum hoje em dia.

7 - O relatório da OMS não foi emitido com base num estudo ou novos desenvolvimentos na área. Foi sim um consenso de "especialistas" que decidiu, de acordo com a evidência que reuniu e com as suas próprias crenças, que a associação existia. E existe, mas não significa mais do que isso - ASSOCIAÇÃO.

8 - Um dos argumentos que ouvi na SIC foi "a carne vermelha é de difícil digestão e ao percorrer o tracto intestinal provoca lesões". What? E a fibra? Também causa cancro por "agredir" a parede do intestino? Ou pelo butirato gerado na fermentação das fibras solúveis poder ser usado como "alimento" da neoplasia? É tão fácil levantar a dúvida... Mas acredito que não tenha sido bem o que quis dizer. Quem já não errou a tentar simplificar demais...

9 - Mais um da SIC - a carne vermelha é acidificante. Correcto, mas uma lata de atum, peixe, sal, pão (carregado de sal), não são menos.

10 - Para a SIC: se querem abordar o assunto de forma séria, não convidam um Naturopata para comentar. Nada contra a classe, antes pelo contrário, mas de que resposta estariam à espera? Apenas fomentar o sensacionalismo. É a mesma coisa que o Ministério do Desporto fazer um estudo sobre o aumento da prática de actividade física em Portugal na sua legislatura, e distribuir os inquéritos à porta de um ginásio. Estamos a condicionar o resultado à partida. E na verdade, nem um nutricionista seria o mais adequado. Teriam sim um especialista em epidemiologia e estatística, pois é disso que estamos a falar - ASSOCIAÇÃO ESTATÍSTICA.

Quando alguém afirma "está mais do que provado que as carnes processadas provocam cancro" é bom que se fundamente com a mesma certeza em base científica. NÃO ESTÁ PROVADO. "Eu considero que" ou "da minha análise parece que" é a forma correcta de o fazer. E é quase chamar incompetente e criminoso ao profissional que, por algum motivo, recomendou na sua total inocência umas fatias de fiambre ou para consumir alguma carne vermelha por falta de ferro, e no dia seguinte teve de se justificar perante o paciente que viu o telejornal.

Nada contra a SIC, mas por acaso estava a ver o jornal da noite. Mera coincidência.

As carnes processados NÃO FAZEM BEM. Mas NÃO CAUSAM CANCRO. Um carcinogénio alimentar com "evidência irrefutável" segundo um painel de "22 especialistas de 10 países" tem "dose segura" e "pode ser comido às vezes". Só faz mal se for todos os dias. Um pouco de coerência por favor... Não há dose segura para algo que "CAUSA" cancro. Ou banem da cadeia alimentar, ou colocam um aviso na lata: "comer salsichas mata" e criam um imposto especial. Ou então têm só juízo e cuidado na forma como passam a informação. E explicam o que é uma "associação" e risco relativo.

Eu cá vou continuar a comer o meu bifinho de novilho de pasto mal passado. E para ser sincero, até o convencional quando tiver de ser. Quanto às carnes processadas, não fazem parte da minha dieta.


11 comentários:

  1. Em termos cientificos sempre têm algo mais do que tu, que tens basicamente....nada a não ser a tua opinião.

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    1. Opinião essa baseada em evidências!!! Que tal deixarmos de acreditar naquilo que temos uma alta e imprescindível necessidade em acreditar e passarmos a ser um pouco mais céticos? É uma prova à qual se te sujeitares obterás muitas respostas.

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    2. Opinião muito válida, pelo que a ciencia sabe, já há mais de vinte anos que se fala do problema das carnes, que não é problema quando na medida certa. Se olharmos para a apresentação de um prato, reparamos que é ocupado em 70 ou 80% de carne, ou peixe, e uns miseros 20% do resto, quando deveria de ser precisamente ao contrário. Com estes habitos alimentares, se substituirmos a carne pelo peixe, vamos, conserteza, ser alertados que tambem o peixe faz mal!

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    3. Opinião muito válida, pelo que a ciencia sabe, já há mais de vinte anos que se fala do problema das carnes, que não é problema quando na medida certa. Se olharmos para a apresentação de um prato, reparamos que é ocupado em 70 ou 80% de carne, ou peixe, e uns miseros 20% do resto, quando deveria de ser precisamente ao contrário. Com estes habitos alimentares, se substituirmos a carne pelo peixe, vamos, conserteza, ser alertados que tambem o peixe faz mal!

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    4. "Unknown" Então um prato equilibrado e saudável, do seu ponto vista, é constituído por 70% ou 80% de arroz/massa/batata e eventualmente alguns vegetais e apenas 20% de carne ou peixe?

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    5. Não sei a que restaurante vais mas na maioria apresentam pratos onde 80% é arroz e batata frita e o resto lá será a tal carne mortífera!

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  2. É pá, tem que se morrer de qquer coisa. Se tiver que morrer de acidente, não morre por comer enchidos.

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  3. Não esquecer que o problema não se reduz à questão da saúde, a industria da carne também é a principal responsável pelo aquecimento global (não vou explicar está tudo na net).

    Posturas como "eu cá vou continuar a comer o meu bifinho"; " tem que se morrer de qualquer coisa"; "posso morrer de acidente" é a típica postura egoísta "tou-me a cagar" e está a atropelar o Planeta!

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  4. Uns dos especialistas que subscreveu o artigo usado pela OMS e publicado na revista "Lancet Oncology" é vegetariano. Pelo menos um é. Com o fanatismo e dogmatismo que os assiste estamos a ver a motivação. A sujeita chama-se Rashmi Sinha e não é a primeira vez que tenta passar estas mensagens

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  5. O painel de especialistas que publicou o artigo na revista de "The Lancet Oncology", tem pelo menos um vegetariano, chama-se Rashmi Sinha.
    Em Setembro a revista Vogue publicou um artigo com o título "Let them eat fat". No artigo dizia-se que a gordura não era problema e podiamos comer charcutaria. A resposta a este artigo veio ao nível mais alto, a OMS.

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  6. A mesma OMS recebeu fundos da Coca Cola para compor os buracos do seu orçamento, ou seja, não credibilidade para emitir aconselhamento alimentar.
    O estudo em causa tem por base correlações estatisticas resultantes de estudos de observação. Quando estabelecemos uma correlação não podemos deduzir uma causa. Existe uma correlação entre o número de Iphones per capita e a incidência de malária, mas não existe nenhuma relação causal entre as duas variáveis. Nem podemos ter veleidade de concluir que um iPhone protege-nos contra a malária. Os estudos de observação levantam hipóteses para serem depois testadas com os “randomize control trials”.

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