12 de outubro de 2015

Estás em Overtraining? Parte 4: Glutamina


Na sequência de uma série de artigos que tenho vindo a publicar sobre o Overtraining, ou digamos antes sobresolicitação neuromuscular como o batizo de forma mais generalizada, trago-vos hoje o segundo indicador bioquímico que podemos utilizar no diagnóstico: a razão entre a Glutamina e o Glutamato no sangue. Para recordar, o primeiro foi a ureia com todas as limitações discutidas [LINK]. E uma das razões pela qual a ureia aumenta é precisamente a maior oxidação e deaminação de glutamina e consequente redução da razão glutamina:glutamato.


O quadro abaixo representa a concentração normal dos vários aminoácidos no sangue e dentro do músculo:


Como podem observar, em condições normais a Glutamina é o aminoácido em maior concentração dentro do músculo, e também em circulação. O aminoácido livre em maior quantidade no organismo. Isto prende-se com as várias funções que detém como transportador de grupos amina, manutenção da pressão osmótica no músculo, e regulação do próprio metabolismo. No entanto, fora do músculo as suas funções não são menos importantes, e funciona como dador de grupos amina na formação de ureia no fígado, substrato neoglucogénico, e substrato energético para os enterócitos e sistema imunitário. Nestes grupos de células com elevada taxa de divisão é também fonte de azoto para formação de bases na replicação do DNA.

O Overtraining é marcado por um ambiente anabólico desfavorável e canibalização da massa muscular, em grande parte mediado pelo aumento do cortisol, ou mais propriamente da relação cortisol/testosterona livre como iremos ver num próximo artigo. A agressão pelo treino ultrapassou o limiar de resposta por parte do sistema imunitário, e a inflamação constante e agora sistémica leva a uma maior produção de cortisol, um anti-inflamatório natural endógeno.

O aumento do cortisol estimula o catabolismo proteico a nível do músculo, a nossa principal "reserva" de Glutamina. Os aminoácidos degradados doam os grupos amina ao Glutamato, formando Glutamina que é libertada para a circulação. Esta é canalizada para o fígado onde entra no ciclo da ureia ou na formação de esqueletos carbonados para neoglucogénese (produção de glicose), mas também substrato para um sistema imunitário em alerta constante para o estado inflamatório e trauma muscular para além da capacidade de recuperação. Isto leva a uma diminuição dos níveis plasmáticos, com consequente comprometimento da função imunitário, menor capacidade de recuperação ao treino, e maior risco de infecção (também comum no Overtraining ou após provas de longa duração).

Uma outra explicação para a diminuição dos níveis de Glutamina é a acidose subclínica gerada no contexto do Overtraining. O pH do sangue é mantido em níveis muito estáveis à custa não só do bicarbonato, mas também pela capacidade da glutamina como dador de grupos NH3 que captam hidrogeniões e geram amónia, solúvel e excretada no rim. Um outro aspecto importante a tratar no Overtraining - aumento do potencial alcalino da dieta.

A diminuição da razão Glutamina:Glutamato tem sido apontada como um dos indicadores bioquímicos mais fiáveis, e um aminograma plasmático pode ajudar no seu diagnóstico. Sugere-se um valor de corte de 3,5 como indicador de catabolismo, sendo o ideal superior a 5,5. Entre 3,5 e 5,5 está um continuum subóptimo que representa estados intermédios como Over-reaching, infecção, ou até inflamação crónica.


Nestas situações, em que se verifica uma redução da [Glutamina], a suplementação com doses entre as 10-20 g é útil e faz aliás parte da terapia recomendável para o Overtraining, a tratar mais tarde. Mas sublinho que a sua utilização é recomenda quando já lá estamos, e não previne necessariamente a entrada num estado de fadiga neuromuscular. Também não seria adequando em condições de caquexia associada a cancro, já que a actividade neoplástica de muitos tumores é sustentada pela Glutamina que "roubam" ao músculo.

Um aminograma plasmático é uma análise possível de se pedir e um bom indicador do metabolismo, em particular do "estado anabólico" de um indivíduo, e até de inflamação crónica subsistente. A diminuição dos níveis de Glutamina está associada a um maior esforço do sistema imunitário que acaba por esgotar o seu substrato, e por um catabolismo acelerado no fígado e músculo pelo aumento do cortisol. No próximo artigo falaremos mais sobre este Janus de duas faces, uma hormona que actua para nos proteger da inflamação aguda mas que se volta contra nós quando a agressão se torna crónica.

Ver também outros artigo na SECÇÃO OVERTRAINING

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