30 de outubro de 2015

O que significa realmente um aumento de risco de 18% com o consumo de carnes processadas?


Continuando, e terminando, a minha apreciação da recente polémica da carne vermelha/processada e o cancro colorectal [1 2], queria apenas esclarecer o que é realmente um aumento do risco em 18%. O Risco Relativo é muitas vezes utilizado pelos media ou industria quando querem exacerbar um número e dar-lhe importância. Um aumento de 18% parece muito, mas será que é mesmo?

O risco relativo não é o risco absoluto. Um aumento de 18% com o consumo de 50 g de carnes processadas por dia não significa que 18 em cada 100 pessoas que ingerem as 50 g por dia vão desenvolver cancro colorectal. Nem nada perto disso. Significa que existe um aumento de risco de 18% (RR 1,18), sobre o risco absoluto.

Calcular o risco absoluto de desenvolver cancro colorectal não é simples e existem vários modelos de predição. Depende da idade, historial familiar, actividade física, dieta, e peso, e só é significativo a partir dos 50 anos, altura recomendada para o rastreio. Vamos dar dois exemplos segundo o modelo de Freedman [J Clin Oncol. 2009 Feb 10;27(5):686-93].

Um homem de 50 anos que fez uma colonoscopia sem pólipos aparentes, sem historial familiar de cancro colorectal, que se exercita 5 vezes por semana, e não fuma, peso normal, tem um risco absoluto de 0,16%. Este é o risco real de vir a desenvolver cancro colorectal nos próximos 10 anos. Se ele ingerir 50 g de carnes processadas por dia, o risco absoluto aumenta 18% - 0,0016 x 1,18 = 0,0019. O risco passou de 0,16% para 0,19%. Aumentou 0,03%.

No outro extremo, um homem de 60 anos que fez uma colonoscopia com polipo presente, que tem 2 familiares com cancro colorectal, sedentário, que fuma 20 cigarros por dia, e que é obeso, apresenta um risco absoluto de 7,14%. Este é o seu risco de vir a desenvolver cancro colorectal nos próximos 10 anos. Da mesma forma, se ele ingerir 50 g de carnes processadas por dia, o risco absoluto aumenta 18% - 0,0714 x 1,18 = 0,084. O risco passou de 7,14% para 8,4%. Subiu 1,26%.

Pondo os números em perspectiva, não é assim tão impressionante pois não? É fácil "manipular" informação de forma a exagerar algo que, na verdade, não é assim tão significativo. Basta apenas não perceber do assunto para ficar chocado com algo que nem é assim tão relevante. É isto que significa um aumento de risco de 18%. Longe de mim defender as carnes processadas ou querer passar a imagem de que são inócuas à saúde. Mas é importante ser honesto com as pessoas. Que este artigo vos ensine a questionar e relativizar os números que vêem nos media. Nem sempre é o que parece.

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