28 de outubro de 2015

Porque não é possível provar que a carne vermelha causa cancro


Depois de já aqui ter escrito sobre a recente polémica do relatório da OMS que coloca a carne vermelha no mesmo grupo do tabaco [LINK], uma questão levanta-se: porque não existem estudos que, de uma forma definitiva e peremptória, afastem qualquer dúvida sobre a relação directa entre o consumo de carne vermelha e o cancro? A resposta é bem mais simples do que parece e nada tem a ver com uma cabala dos produtores de carne. Simplesmente NÃO É POSSÍVEL.

Como vos disse, a grande maioria dos estudos a mostrar uma associação positiva entre o consumo de carne vermelha e cancro são estudos retrospectivos caso-controlo. Estudos prospectivos, que acompanham uma coorte ao longo dos anos, têm falhado em revelar uma associação positiva, pois são mais potentes em excluir variáveis secundárias. Na verdade, o EPIC, um estudo prospectivo de grande escala em curso na Europa, mostra que os vegetarianos não têm menor risco de cancro colorectal comparativamente aos que comem carne

E porque estes estudos caso-controlo, retrospectivos, não nos acrescentam grande coisa? Como o nome indica, eles avaliam o passado e não acompanham ao longo do tempo. Basicamente, perguntamos a uma pessoa com cancro colorectal diagnosticado como era a sua dieta. Tendo em conta que a iniciação do processo neoplásico pode ter ocorrido 5-10 anos antes do diagnóstico, a pergunta correcta seria: quanta carne vermelha comias há 5 anos atrás? As pessoas mal se lembram do que comeram ontem quanto mais da sua dieta há 5 anos. Além disso, muito provavelmente já teriam sido condicionados pelo diagnóstico a procurar na carne vermelha uma explicação para a sua má fortuna. Depois de o médico ou alguém lhe dizer que não pode comer carne vermelha, que faz mal, então há 5 anos atrás comia muita certamente. O mesmo se aplica a outras variáveis que normalmente associamos a comportamentos negativos - álcool, exercício, sono, entre outros.

Mas mesmo em estudos caso-controlo, com as limitações apresentadas, estamos a falar em riscos relativos abaixo de 1,2-1,3. Isto não é nada... Mesmo em estudos prospectivos que sejam! Qualquer coisa abaixo de 2-3 é pouco, e segundo os critérios de Bradford-Hill, bem longe de poder sequer cheirar a causalidade. 

Vamos tentar desenhar o ensaio clínico ideal para avaliar a relação causa-efeito entre o consumo de carne vermelha e o cancro colorectal. 

Dois braços experimentais - um grupo consumia uma quantidade X de carne vermelha diariamente ou com Y frequência, a retirar dos dados levantados nos estudos epidemiológicos feitos até então. Digamos os 100 g por dia que fala o relatório da OMS. O outro grupo não comeria carne vermelha. Problema: só a suspeita de que a carne vermelha poderia causar cancro num dos grupos viola a declaração de Helsínquia e nunca seria aprovado tal estudo por uma comissão de ética. Ora vamos lá por um grupo a comer a malvada carne a ver se lhes provoca cancro...

Controlo das variáveis - para além da ingestão de carne vermelha, ambos os grupos teriam de ser submetidos a um controlo apertado de outras variáveis como o aporte calórico, consumo de hidratos de carbono e gorduras, gorduras trans ingeridas, exercício físico, álcool, tabagismo, horas de sono, e tudo o que possa interferir com a prevalência de cancro colorectal. Como devem imaginar, este controlo é impossível para um estudo da escala que estamos a falar. Poderíamos até ir mais longe e distinguir carne de pasto de carne convencional. São 1000 pontas por onde pegar.

Número de indivíduos - todos os estudos epidemiológicos que foram surgindo com uma associação positiva sugerem um efeito pequeno, como não será de estranhar com um alimento que está na nossa cadeia alimentar desde sempre. Logo, o número de pessoas envolvidas para o estudo ter a potência estatística necessária é enorme. Estamos a falar milhares de pessoas sob controlo apertado das variáveis acima mencionadas.

Duração - não se espera que o cancro colorectal apareça sob efeito de uma variável alimentar num curto espaço de tempo. É resultado de um processo progressivo que pode levar cerca de 10 anos. Um ensaio clínico com 10 anos é simplesmente impossível.

Custo - devido a todos os factores que mencionei, o custo de um estudo deste tipo é absurdamente elevado. Para mais tendo em conta o custo dos próprios exames para monitorizar a eventual presença e progressão da doença.

É fácil associar qualquer coisa ao cancro, e isso foi já repetidamente demonstrado. Comer qualquer coisa, a qualquer momento, está associado ao cancro colorectal em mulheres, e com um risco relativo de 1,28 [LINK]. Superior ao que a OMS considerou relevante entre a carne vermelha e cancro. Da mesma forma, tudo o que comemos parece estar associado ao cancro [LINK]. Não há volta a dar...

Por tudo isto, não se espere que apareça um estudo conclusivo sobre esta matéria. Mas não se inverta o ónus da prova. Ninguém precisa de provar a inocência da carne vermelha, precisam sim de provar a sua "culpa". E isso meus caros, até hoje, nunca foi feito. Pelos dados que temos, não podemos afirmar de forma alguma que a carne vermelha tem uma relação causal com o cancro. Por isso afirmo, até prova em contrário, a carne vermelha NÃO CAUSA CANCRO. E mais... Comparar com o tabaco é um absurdo sem tamanho.

3 comentários:

  1. Qual a sua opinião sobre o o livro The China Study, escrito por T. Colin Campbell?

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  2. Segundo os dados fornecidos pelo IARC, os estudos em que se basearam não foram retrospectivos mas sim estudos prospectivos de coorte.

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    1. Isso é o que diz o press release da IARC. Mas dos 800 estudos analisados, uma grande fatia são caso-controlo. Nem sequer existem 800 estudos prospectivos a analisar a associação da carne vermelha ao cancro.

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