14 de outubro de 2015

Variação da glicemia ao longo do dia e resposta da insulina aos hidratos de carbono


Uma das perguntas que mais frequentemente me colocam é o timing da ingestão dos hidratos de carbono ao longo do dia. Será que a nossa resposta a estes hidratos de carbono é igual em diferentes momentos? Um sonante NÃO. Existem vários factores que condicionam a resposta e a capacidade do organismo em lidar com a glicose ingerida, e é sobre isso que nos vamos debruçar um pouco.

Os gráficos que se seguem representam a resposta da glicemia (periférica) e insulina (periférica) à ingestão de uma solução de 50 g de glicose em 3 momentos: 9:00, após jejum, 15:00, e 20:00.



De manhã (9:00), após jejum, a ingestão de 50 g de glicose leva a uma resposta "exagerada" da insulina, e a um menor pico glicémico comparativamente às 15:00 ou 20:00. Porque a insulina eleva tanto nesta altura do dia se a glicemia é mais baixa? A resposta não é óbvia, mas infelizmente o nosso organismo é algo complexo e irredutível ao simplista. A glicemia na circulação periférica não eleva porque as reservas de glicogénio hepático estão depletadas pelo jejum nocturno e o fígado capta avidamente a glicose ingerida. A resposta de insulina é "exagerada" pois, aquando da entrada de glicose nas células beta via GLUT2, existem muitas vesículas de secreção na periferia junto à membrana plasmática. Durante a noite não houve estímulo à secreção acima do basal, mas a migração das vesículas ricas em insulina para a periferia pode demorar até 24 h e não representa a produção imediata. Quando a célula é estimulada após um jejum longo, há um "burst" de insulina a sair do pâncreas.

Além disso, a concentração intersticial de insulina de manhã em jejum é quase nula e o limiar necessário para acção nos tecidos periféricos superior, ao que chamamos priming. Tecidos periféricos esses que estiveram a usar ácidos gordos como substrato durante a noite, cujo metabolismo inibe a captação dos hidratos de carbono.

E à noite? Porque secretamos menos insulina e temos uma resposta glicémica maior? A resposta está mais uma vez nos ritmos circadianos, controlados em parte pelo parassimpático. Além disso, as reservas hepáticas estão agora repletas. A resposta da insulina é NATURALMENTE menor à noite, em parte também pela acção inibitória da leptina no eixo adipoinsular. Lembrem-se que a leptina, em condições fisiológicas normais, vai aumentando ao longo do dia e atinge o seu pico à noite. A nossa cronobiologia pede-nos para não comermos muito ao final do dia. É altura de descansar. Esqueçam lá a Warrior Diet e afins.

Portanto, se quisermos transformar isto em algo prático, nem a manhã nem o final do dia são as melhores alturas para ingerir uma grande quantidade de hidratos de carbono (>30-40 g), excepto no enquadramento do treino. Aqui tudo muda. A capacidade do fígado em captar eficientemente glicose dá-nos alguma margem de manhã, e a ingestão de fruta ao pequeno-almoço pode, pelo seu teor em frutose, pode facilitar a regeneração das reservas hepáticas de glicogénio, sendo provavelmente a melhor altura do dia para a ingerir. Sem esquecer nunca a proteína claro.

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7 comentários:

  1. Agora fiquei confuso. Tinha ficado com a ideia que o maior pico de glicémia dá-se precisamente após o pequeno-almoço comparativamente ao almoço ou jantar, reflexo da maior resistência à insulina. Ou não? Obrigado.

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  2. Também fiquei com a mesma dúvida... noutro post sobre hidratos de carbono ao peq almoço refere que a glicemia é maior ao peq almoço (apresenta gráficos mas em diabéticos), o que contraria estes gráficos. Afinal em jejum há maior ou menor resistencia a insulina e a glicemia é maior ou menor num indivíduo normal? Ana

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    1. Depende da quantidade de glicose na refeição e resistência à insulina é diferente de tolerância aos hidratos de carbono. Uma vez que o glicogénio hepático é consumido no jejum nocturno, o fígado é ávido a captar a glicose pela manhã, e é este orgão que recebe a maior quantidade - via circulação portal. A resistência é maior, mas a tolerância pode ser maior desde que a quantidade seja baixa para que o fígado seja capaz de a remover. Num diabético é diferente pois não há inibição da neoglucogénese, contribuindo para a glicemia periférica

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  3. Ou seja, a resistencia à insulina é maior de manhã, mas a glicemia vai ser mais baixa porque o fígado avidamente capta mais glicose? Então porque não acontece o mesmo nas PTGO em pessoas com dietas restritas em HC? A glicemia deveria ser tb mais baixa porque o fígado depletado estaria mais ávido e captante.
    No diabético não há inibição da neoglucogénese?

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    1. Não tenho a certeza se entendi bem a pergunta. No diabético não há pois a insulina não sobe o sobe o suficiente na circulação portal para inibir o efeito da glucagina.

      Em individuos com dietas muito restritas em hidratos de carbono pode ou não ocorrer. Há uma variabilidade inter-individual na resposta, e enquanto que umas apresentarão uma boa tolerância aos 50 g de um PTGO, outras irão ter hiperglicemia com pouco mais de 30, o que é mais comum. Aliás, não é por acaso que antes de um PTGO se pede para que a dieta garanta pelo menos 150 g de hidratos de carbono nos 3 dias antecedentes à prova. Muitos laboratórios não o fazem, mas é o que o manual manda. A adaptação à utilização de ácidos gordos é tão grande que as enzimas glicogénicas e glicolíticas em geral estão inibidas.

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  4. Este estudo "Circadian modulation of glucose and insulin responses to meals: relationship to cortisol rhythm.Van Cauter E1, Shapiro ET, Tillil H, Polonsky KS. Am J Physiol. 1992 Apr;262(4 Pt 1):E467-75"
    mostra o contrário: que perante uma mesma refeição, os níveis de insulina são mais elevados à tarde....
    Como é possível?

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    1. Não tenho acesso a este estudo completo sem o DOI, e a informação do Abstract é claramente insuficiente. Preciso de conhecer a amostra, teor da refeição, e hora do PTGO.

      Para leres mais sobre o assunto de uma forma integrada, aconselho o livro "Metabolic Regulation: a Human Perspective".

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