23 de novembro de 2015

Sono vs dieta: o que tem mais impacto na nossa saúde?


Na sequência do meu artigo anterior sobre a necessidade de distinguir o essencial do acessório no que respeita à nossa saúde [LINK], falo-vos de um estudo a ser apresentado no próximo Meeting da Obesity Society que, embora em modelo canino, ilustra na perfeição a magnitude do impacto de certas variáveis na saúde. Segundo os resultados da equipa encabeçada por Josiane Broussard, apenas uma noite de privação de sono tem o mesmo impacto que uma dieta de "junk food" durante 6 meses na redução da sensibilidade à insulina. Na verdade, foi até maior (-33% vs -21%). Repito: não dormir uma noite diminuiu mais a sensibilidade à insulina do que 6 meses a comer "porcaria".

Convém deixar claro que se trata de um estudo com um modelo animal cuja dieta natural difere bastante da nossa. No entanto, dado o que já se sabe acerca do impacto do sono na saúde metabólica, não tenho grandes dúvidas de que em Humanos os resultados serão reproduzidos sem grandes diferenças. Isto não significa que uma variável seja mais importante do que a outra, mas que ambas são importantes, e que optimizar uma sem a outra não faz qualquer sentido. Na saúde nada se faz pela metade.

No que toca à nossa saúde, somos uma espécie em decadência apesar de todos os avanços que a ciência nos proporcionou. Não sendo fácil identificar um marco histórico na nossa evolução que possa explicar este fenómeno, os últimos 40-50 anos têm sido marcados por uma deterioração galopante da nossa saúde e dependência crónica de fármacos. Vivemos mais anos, mas quantos desses são de plena vitalidade e saúde? Centenas de publicações e teorias já sairam sobre o assunto, e em todas elas encontramos "a resposta". É o stress. É o distúrbio dos padrões de sono naturais. É a dieta. É o sedentarismo. E se não for nenhuma? E se forem todas ao mesmo tempo? 

A nossa saúde é resultado de uma interacção dinâmica de múltiplas variáveis para além de qualquer modelo estatístico compreensível ao intelecto humano. Simplesmente não é possível estudar e avaliar a influência e interacção de tantas em simultâneo. Mas na verdade é provável que o resultado seja mais penoso do que a soma das "pequenas" partes, algumas a que nem damos importância, e outras a que damos importância demais. Para a grande maioria das pessoas, a discussão não deveria ser a inclusão de chia ou do próximo super-alimento na dieta. Parece que agora até pode fazer um rolhão no intestino. Se devem cortar nos hidratos de carbono ou na gordura. Não fará grande diferença! Isto quando nem sequer o stress do dia-a-dia sabem gerir e garantir um sono de qualidade.

O problema é estruturante e mexe com a sociedade como a conhecemos. Não há soluções simplistas para problemas fundamentais e é escusado enfiar a cabeça na areia. Nutricionistas, médicos, personal trainers, naturopatas, etc. Todos podem fazer muito pela saúde das pessoas, especialmente se alargarem os horizontes ao pouco que conhecem e dominam da saúde humana. Soluções integradas são urgentes para combater um problema sério de saúde pública. Não há espaço para super-especialistas nem para super-generalistas fechados no seu Mundo. Como se costuma dizer, num Mundo de cegos, o homem com um olho é rei.

3 comentários:

  1. Uma questão offtopic, que me tem causado várias dúvidas após ler e ler:

    É realmente necessário suplementar com ómega-3?

    Passo a citar "A idéia de corrigir a proporção corre na blogosfera páleo, mas os estudos mais recentes com o que interessa (desfechos duros: mortes, eventos) não mostram vantagem da suplementação de óleo de peixe. Peixes alimentados com ração têm mais ômega 3 do que 6, apenas têm mais 6 do que os selvagens. Finalmente, os estudos que mostram melhores desfechos duros para quem come peixe foram feitos com peixe de supermercado (as coortes desses estudos não são de fãs de páleo que compram salmão do Alasca)." - J. C. Souto (http://www.lowcarb-paleo.com.br/2015/11/dieta-da-moda-uma-moda-que-ja-dura-150.html)

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    1. Muito bem João. Mas eu prefiro não me contaminar com salmão cheio de PCBs e antibióticos como os das produções chilenas sem controlo de qualidade. Se o autor do texto, quem eu muito prezo, não considera importante, estou de acordo com ele.

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  2. Bom artigo....

    Eu trabalho por turnos e de 3 em 3 semanas faço noite por isso a minha saúde deve estar um caos :(

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