10 de dezembro de 2015

Os suplementos alimentares são eficazes ou não?


Os suplementos alimentares são eficazes ou são apenas sorvedouros de dinheiro? Esta pergunta daria lugar a uma discussão apaixonada entre uma sociedade dividida em dois extremos: os que os consideram completamente inúteis e os que os acham a água benta do desporto. A verdade é que se nos basearmos apenas nos estudos científicos publicados à luz da evidência chegamos à frustrante conclusão de que a grande maioria é de facto ineficaz, senão inútil. Mas eles continuam a ser utilizados, e alguns com grande sucesso apesar da falta de suporte. Eu próprio utilizo e recomendo determinados suplementos em enquadramentos específicos. Sendo um defensor e "pregador" de ciência, não estarei eu próprio corrompido pelo hype, crença, e marketing? Acredito que não.

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Antes de mais convém definir o que é um suplemento alimentar afinal. Trata-se de uma fonte concentrada de nutrientes ou compostos bioactivos, normalmente também presentes nos alimentos/"Natureza", comercializada de forma doseada e que actua em vias metabólicas específicas. Existirá um objectivo funcional subjacente em cada suplemento, embora nem sempre se traduza em resultados práticos observáveis. Infelizmente, os suplementos alimentares são regulados como alimentos, não estando sujeitos a qualquer tipo de aprovação ou controlo de qualidade. Assim sendo, a relação entre o consumidor e a indústria é na base da confiança, porque na verdade não fazemos a menor ideia do que estamos a tomar, e ninguém está a fiscalizar por nós. Felizmente existem companhias que garantem esse controlo, não porque sejam obrigadas mas porque isso lhes trará uma vantagem num mercado de consumidores cada vez mais informado e exigente. E são as certificações que devemos procurar, GMP por exemplo, ou confiar. 

Este é também um dos vários motivos para não nos podermos fiar em exclusivo na investigação científica publicada. Quando analisamos um estudo não podemos ter apenas em atenção a substância utilizada. É importante saber qual o produto em especifico e a sua rastreabilidade até ao produtor da matéria-prima. Em muitos casos são utilizados produtos comerciais de fraca qualidade para reduzir o custo do ensaio que é normalmente elevadíssimo. Noutros nem sequer há essa rastreabilidade, ou são utilizados produtos de diferentes fabricantes no mesmo estudo. Existem diferenças significativas na formulação de cada um, não só a nível da qualidade da matéria-prima, mas também na sua biodisponibilidade e biocompatibilidade que devem ser tidas em conta. Quando sistematizamos a informação em meta-análises os resultados são afectados pelas diferentes matérias-primas utilizadas para uma mesma substância.

Outro dos problemas dos suplementos alimentares é serem isso mesmo... suplementos alimentares. Tratam-se na grande maioria dos casos de substâncias presentes na Natureza, logo não susceptíveis a patente. O interesse comercial em executar estudos de eficácia é limitado porque os direitos de comercialização não estão protegidos. Ao contrário do que acontece com as farmacêuticas, nenhuma companhia de suplementos com juízo irá financiar um estudo em grande escala, conclusivo mas com custos exorbitantes, com uma substância que não pode ser exclusivamente sua. Por esta razão, os estudos com suplementos alimentares são de um modo geral de fraca qualidade e pouco robustos, dos quais não podemos extrair conclusões sólidas.

Um dos aspectos que mais encarece um ensaio clínico é sem dúvida o número de participantes, de um modo geral muito pequeno nos estudos com suplementos alimentares. Demasiado pequeno para a potência estatística necessária para um efeito que se espera reduzido, pondo em causa eventuais resultados positivos reais. Por outro lado, se o resultado for negativo não nos podemos precipitar e dizer que o suplemento é ineficaz, correndo o risco de incorrer num erro tipo 2. O tamanho da amostra pode apenas não ter sido suficientemente grande para detectar um efeito de pequena magnitude, mas existente. O suplemento tem efeito significativo, o estudo é que não foi suficientemente sensível para o encontrar. O tamanho da amostra não era o adequado.

E a magnitude do efeito leva-nos a uma outra questão: as expectativas e significância prática. Muitas vezes o problema não está no suplemento, mas apenas no que esperamos dele, normalmente mais do que aquilo que nos pode dar. Isto é por demais evidente nos suplementos para perda de peso. Reduções na ordem dos 1-2 Kg aos 6 meses podem ser significativas, mas bem menores do que as expectativas de quem os compra. Da mesma forma, a administração de um suplemento pode surtir efeitos positivos sem que estes sejam de relevância prática. A suplementação com CLA durante 6 meses pode levar a uma redução de 1,2 kg, estatisticamente significativa numa amostra grande. Mas 1 kg em 6 meses é relevante em alguém que tem 20 para perder? No entanto, quando falamos em atletas de competição, 1 segundo pode fazer a diferença entre o primeiro, e o primeiro dos últimos. Um pequeno efeito pode traduzir-se num grande resultado.

Muitos estudos com suplementos desportivos iniciam o protocolo com uma mudança no treino do atleta, ou recrutam indivíduos com pouca experiência.


A verdade é que a grande maioria dos atletas não se encontra nessa fase, nem é aí que um suplemento alimentar irá dar grande ajuda. O treino só por si traduz-se em adaptações muito positivas quando comparado a fases posteriores do ciclo de treino. Mas não é aí que a maioria dos atletas se encontra, competitivos ou recreativos, e é nestes que os suplementos poderão ter alguma utilidade no aumento da performance.

A variabilidade interindividual de resposta também não pode ser esquecida. Nem toda a gente experiencia os mesmos efeitos, com os mesmos resultados. Isso tem a ver não apenas com o estilo de vida de cada um, mas também com a interacção entre o nutriente/composto e o genoma/epigenoma. Infelizmente são poucos os estudos que nos apresentam os resultados em detalhe e não apenas as estatísticas comuns baseadas em médias. Nesses casos raros, é interessante verificar a variabilidade de resposta individual à mesma substância, em condições semelhantes. A medicina e nutrição personalizadas são o futuro, baseadas não em tendências centrais mas na dispersão dos resultados. O desvio padrão é tão ou mais importante do que a média para benefício do doente ou atleta.

Analisar a eficácia de um suplemento alimentar é uma tarefa ingrata, mas que todos os clínicos que orientam a sua prática para o benefício do doente terão de o fazer. Mas isso não se faz a ler o abstract de um paper. Quando a "evidência" (estudo) é de má qualidade, as conclusões são do mesmo tipo, quer para o bem como para o mal. Mas há mais para além da evidência científica e muitas vezes temos de fazer um compromisso com ela se queremos realmente ajudar as pessoas. A prática, o bom senso, a honestidade, e o espirito crítico são os melhores conselheiros para uma boa decisão quando chega a altura de recomendar ou escolher um suplemento alimentar. Os sintomas e marcadores bioquímicos melhoram ou não? A performance aumenta ou não? Existe plausibilidade biológica? Os estudos são suficientes e de qualidade? São estas as questões que realmente interessa fazer. Cabe-nos a nós essa avaliação da eficácia, ou se será em primeiro lugar útil num contexto particular. Não nos precipitemos a avaliar os suplementos alimentares, muito menos com base em preconceitos e interpretação abusiva da evidência científica.

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