22 de maio de 2016

Pelo XV Congresso de Nutrição e Alimentação...


No passado dia 20 de Maio tive a oportunidade de ser um dos prelectores no XV Congresso de Nutrição e Alimentação, o maior a nível Nacional dedicado a esta temática. Foi uma honra e um privilégio ser orador para centenas (ou milhares?) de nutricionistas que dedicaram a sua tarde de 6ª feira a um debate sobre "Novas Dietas", com a "Dieta Paleo e Low-Carb" à minha responsabilidade, e o Jejum Intermitente com o Dr. Nuno Borges. Um fardo pesado e ingrato, mas que tentei carregar com o maior rigor e isenção possível num tema tão polémico.

Percebi cedo em conversa com a jornalista Vera Novais do Observador que muitos estariam à espera que eu saísse em defesa deste modelo alimentar Paleo. Mas quem conhece a fundo o meu trabalho e priva comigo sabe bem o quanto sou crítico e céptico em relação às "dietas com nome". E assim comecei a minha palestra: "Não gosto de dietas com nome". E não gosto mesmo! Paleo, low-carb, da Lua ou dos signos. Seja qual for o seu batismo, carrega-a de ideologia que entra em conflito com a análise científica com que deve ser escrutinada. E mais do que isso, com a personalização que se deseja em qualquer regime alimentar.

Em breve resumo, passámos por um enquadramento histórico da dieta Paleo Moderna e os pilares em que assenta. Vimos que não existe uma dieta Paleolítica, mas sim várias consoante a região do globo, sazonalidade, e disponibilidade de alimentos. Existem vários modelos, e a melhor forma que temos de os inferir é olhar para populações actuais que mantêm hábitos mais próximos dos ancestrais - as populações "não-Ocidentalizadas". E aí encontramos uma variedade enorme de alimentos, mas uma coisa não encontramos em nenhuma - alimentos processados e "artificializados". Além disso, não encontramos um estilo de vida corrosivo como o Ocidental, marcado por stress crónico, má higiene de sono, excesso de higiene por outro lado, exposição a xenobióticos, sedentarismo, enfim... Uma panóplia de factores que sobrecarregam o nosso sistema - carga alostática. Olhar para a dieta apenas é demasiado redutor para esta teia de inter-relações que afeta insustentavelmente a nossa saúde. 

Uma ideia que tentei manter sólida em toda a apresentação é que uma matriz alimentar Paleo pode ser saudável de acordo com a evidência que dispomos, mas não necessariamente o único caminho a seguir. Além disso, Paleo não é necessariamente low-carb, e esta é uma linha divisória muito importante de traçar. A necessidade de hidratos de carbono não é igual para todos. Em alguns casos pode ser interessante restringi-los, noutros não. Tal como fechei a intervenção:

"O que precisamos é de menos livros de dietas e mais personalização. E acima de tudo, muito bom senso"

Devo também dizer que é com muito bons olhos que vejo temas tão polémicos como o glúten, lacticínios e jejum intermitente a serem discutidos entre profissionais. Opiniões diferentes só são problema quando existe ego envolvido. De resto são a força motriz que faz avançar o conhecimento. Também houve espaço para uma excelente matéria sobre a exposição a disruptores endócrinos [LINK]. Um problema sério de saúde pública para o qual há cada vez mais consciência [LINK]. Tive também o prazer de almoçar e conversar com Kevin Tipton, um dos investigadores mais proeminentes na área da Nutrição Desportiva e que deixou um conselho a todos: "Be skeptical but open minded". Uma mensagem importante a reter...

Espero que o meu contributo tenha sido uma mais valia, e para o ano lá estaremos, seja no palco ou na plateia. Resta apenas agradecer à Associação Portuguesa de Nutricionistas pelo convite.


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