20 de junho de 2016

Açúcar: uma espécie de "droga" de pequeno-almoço das nossas crianças?


É consensual que o combate à obesidade deve-se focar na prevenção, incutindo desde cedo hábitos alimentares saudáveis nos mais novos. Algo pouco compatível com a oferta que encontramos nos supermercados, em particular nos cereais de pequeno-almoço que inocentemente damos às nossas crianças, ignorando o absurdo de açúcar que contêm. Aliado à textura crocante e a um teor minuciosamente afinado de sal, estes cereais são um fogo de artificio viciante para os centros cerebrais de recompensa e prazer que respondem como se de uma droga se tratasse. Na verdade, as zonas do cérebro activadas com o consumo de açúcar são as mesmas do que com a cocaína, não querendo fazer comparações desmedidas. O prazer é grande, e isso tem uma razão de ser.

A percepção sensorial ao doce nasce com o bebé, ao contrário de outros sabores que só mais tarde são adquiridos, como o salgado por exemplo. Do ponto de vista evolutivo deverá estar relacionado com a percepção de alimentos altamente calóricos que permitam um crescimento rápido em períodos de escassez. Se pensarmos bem, a grande apetência e preferência que temos pelo doce é vantajosa como um mecanismo de sobrevivência, bem como a vontade de comer mais do que necessitamos. Os alimentos doces seriam escassos durante a nossa evolução, e um sinal de abundância. Hoje estão à distância de uma ida ao supermercado. Uma fome diferente da homeostática, marcada pela necessidade de energia, e que denominamos de fome hedónica - procura de prazer e satisfação com os alimentos.

Sabe-se que o limiar de doce para a maior gratificação de um alimento é superior nas crianças comparativamente aos adultos. Um conceito conhecido na indústria alimentar como "bliss point", e explorado por especialistas em engenharia alimentar e modelação matemática para tornar o produto o mais viciante possível. Uma orquestração precisa de açúcar, sal, gordura e textura.


As crianças são então um alvo apetitoso para a indústria alimentar, e não pretendo aqui fazer qualquer juízo de valor embora considere em alguns casos a publicidade demasiado agressiva. A utilização de personagens fictícias como imagem de marca, cores e formas vibrantes dos próprios cereais. Escolha precisa dos intervalos da programação destinada a este segmento e pequenos pormenores como o aumento do volume de som durante os anúncios, algo recentemente proibido pela entidade reguladora. E claro, uma afinação milimétrica do "bliss point" para máximo prazer da experiência. Tudo isto devemos a três homens pioneiros, lendas da indústria alimentar. O matemático Howard Moskowitz, o químico Al Clausi, e Charles Mortimer, ex-director da marketing da General Foods.

O problema já foi de tal maneira grande que Jean Mayer, reconhecido especialista em Nutrição de Harvard, recomendou que os cereais de pequeno-almoço fossem vendidos em confeitarias e nas zonas destinadas aos doces nos supermercados. Eram produtos que apresentavam mais de 50% de teor de açúcar, quantidade que foi sendo reduzida à medida que os consumidores iam ficando mais alerta para os problemas associados ao açúcar, e com a revolta dos dentistas devido às cáries dentárias que cada vez mais encontravam nas crianças. Hoje o teor de açúcar na maioria dos cereais de pequeno-almoço situa-se na faixa dos 25 a 35%, ainda assim demais.

Mas o que é importante perceber aqui, é que para além da maior apetência inata das crianças ao doce, este "bliss point" pode ser condicionado pelas experiências alimentares no início da nossa vida. Quando lhes damos um alimento com 30% de açúcar em base diária, e pedem mais, estamos na verdade a ensinar-lhes como um alimento deve saber num período em que estes produtos estão à distância de uma prateleira - estupidamente doce. E assim condicionar as suas escolhas no futuro. Pense nisso.


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