1 de junho de 2016

Dietas cetogénicas no tratamento do cancro


O cancro é provavelmente uma das doenças que mais nos assusta, e para a qual a medicina Moderna ainda não conseguiu dar uma resposta satisfatória. Apesar de todos os factores de risco condicionados pelo estilo de vida, até um monge budista pode padecer de um problema oncológico, quando menos o espera. Mesmo com as particularidade de cada tipo de cancro, o que dificulta também a própria intervenção, as células tumorais apresentam algumas características comuns que são hoje os principais focos da terapia. E uma delas é o metabolismo energético. Neste sentido, as dietas cetogénicas têm sido apontadas como uma possível estratégia alternativa de tratamento do cancro.

Apesar de não ser verdade para todas as células do microambiente tumoral, a glicólise aeróbia é uma característica muito frequente e caracterizante, identificada por Otto Warburg em 1931 e que lhe valeu o prémio Nobel. Isto significa que mesmo na presença de oxigénio estas células utilizam a glicólise como via preferencial na produção de energia. Esta transição metabólica relaciona-se com o próprio processo de transformação, muitas vezes associada a oncogenes activados, produzindo lactato que é exportado pela célula de forma a que esta possa manter a sua viabilidade. E apesar da glicólise ser menos eficaz na produção de energia, a preferência por esta via permite conservar carbono e sustentar processos biossintéticos necessários à proliferação celular acelerada.

Uma vez que estas células são exclusivamente dependentes de glicose para sobrevivência e multiplicação, a lógica de merceeiro diz-nos que se restringirmos os hidratos de carbono da alimentação vamos impedir a progressão do tumor. É aqui que entram as dietas cetogénicas, onde os corpos cetónicos são utilizados como combustível alternativo à glicose em células saudáveis mas não pelas células tumorais.

Os estudos em humanos com dietas cetogénicas têm sido limitados a um tipo particular de cancro - os gliomas. Trata-se de um tumor cerebral nas células da glia com um prognóstico pouco favorável. Como disse, os corpos cetónicos podem ser utilizados como fonte de energia em células cerebrais normais, mas não em células transformadas que praticamente não expressam enzimas cetolíticas. E para ajudar, a hiperglicemia está associada a mortalidade precoce no glioblastoma.

Mas quando olhamos para a evidência em humanos vemos que a maioria dos estudos não são na verdade "estudos". São relatos de caso e de natureza meramente observacional, onde 1 ou 2 pacientes melhoraram os sintomas e prolongaram a sua vida com este tipo de dieta. Num dos maiores estudos que encontrei, com 16 indivíduos e tipos de cancro mistos, a dieta cetogénia de facto parece viável no abrandamento da progressão da doença. No entanto, na ausência de um grupo controlo não sabemos se a melhoria se deveu à dieta ou ao tratamento convencional que também estavam a receber. 

E do mesmo estudo que referenciei, a principal conclusão que devemos tirar é a dificuldade em aderir a uma dieta cetogénica e hipocalórica. Apenas 5 dos 16 chegaram ao final do estudo. Deixo-vos como exemplo um protocolo comum:



Em vários dos estudos os MCTs são utilizados para induzir cetose mais rápido, com concentrações desejáveis de corpos cetónicos acima dos 0,5 mmol/L. Em alguns ensaios recorre-se à suplementação com ómega-3, também eles com um efeito anti-inflamatório e anti-catabólico de interesse em pacientes oncológicos.

Como puderam constatar no protocolo acima, a dieta é extremamente rígida e os valores de glicemia a atingir bastante baixos. Ora, isto é muito difícil de conseguir em pacientes com gliobastoma que frequentemente tomam glucocorticóides para alivio do edema. Por este motivo será necessária uma grande restrição que poucos pacientes suportam num estado tão débil, e para a qual tenho sérias reservas.

A doença oncológica é um estado caquético, em que a inflamação sistémica criada pelo tumor leva à degradação do tecido muscular para suporte da própria neoplasia. O músculo fornece-lhe a glutamina que precisa para manter o ciclo de Krebs e biossíntese, e alanina para neoglicogénese hepática. Mesmo assumindo que os corpos cetónicos providenciam um substrato alternativo para o músculo, eles não diminuem a inflamação. Como tal, a perda de massa muscular não deverá ser travada em cetose como acontece noutros contextos. Até prova em contrário, a privação de hidratos de carbono pode acelerar esta perda de massa muscular e debilitação, mesmo com o efeito protector dos ómega-3.

Um outro aspecto associado à restrição de hidratos de carbono que poderia ser favorável no cancro é a redução da insulina, que em alguns casos actuará como promotor de crescimento e proliferação. No entanto, se há lição que a Oncologia como ciência deve retirar até hoje é que o tumor se adapta como se de "um ser dentro de um ser" se tratasse. Muitas células são auto-suficientes em factores de crescimento, ou com actividade constitutiva de factores de sinalização a jusante dos receptores de tirosina cinase, como o receptor de insulina. Da mesma forma, poderíamos pensar que o aumento da hormona do crescimento em cetose beneficiará o crescimento do tumor.

Em resumo, a evidência é escassa, senão nula, para a utilização de dietas cetogénicas no tratamento do cancro em humanos. Os estudos são apenas observacionais e de caso, sem grupo controlo, sendo impossível afirmar que a melhoria se deve à dieta ou à terapêutica convencional que também estão a receber. Além disso a adesão ao protocolo é baixa e penosa para alguém já num estado débil, sem garantias de que esse mesmo estado não se irá agravar.

No desespero as pessoas estão receptivas a todo o tipo de estratégias e milagres que prometam reverter a sua má fortuna e a morte vaticinada. No entanto, apontar a dieta cetogénica como tratamento eficaz para o cancro está longe de ser suportado a nível científico. O corpo humano não é uma caixa de Petri ou um ratinho de laboratório, e nós não somos cobaias.


Chang et al. Nutrition & Metabolism 2013, 10:47
Zuccoli et al. Nutrition & Metabolism 2010, 7:33
Schmidt et al. Nutrition & Metabolism 2011, 8:54
J Clin Onco 2009, 27:1082-1086

1 comentário:

  1. Em um mundo quase perfeito seria possível combinar as duas coisas se não existissem outros interesses alem da saúde das pessoas.
    Cabe aos mais novos agora mudar isto baseando-se nos novos estudos.

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