Sobre mim

Sérgio Veloso, MSc
Portugal

Formação principal: 
2008 - Licenciado em Biologia Celular pela Faculdade de Ciências de Lisboa
2011 - Mestre em Biologia Humana pela Faculdade de Ciências de Lisboa
2012 - Pós-graduado em Nutrição Clínica pelo ISCSEM



O Blog


And that after this is accomplished, and the brave new world begins
When all men are paid for existing and no man must pay for his sins
                          
                                    The Gods of the Copybook Headings, Rudyard Kipling, 1919.

Fat New World, Admirável Mundo Gordo. O título do blog inspira-se na obra-prima de Aldous Huxley, Brave New World (“Admirável Mundo Novo”), publicada em 1932. O romance passa-se em Londres, no ano de 2540, uma altura em que as nações do Mundo estão unificadas num Estado único pacífico e próspero. Aqui, para manter uma economia de comando, os cidadãos são ensinados desde criança a valorizar o consumo, satisfazendo assim as necessidades sociais de emprego e de "distracção" da mente. Mas este modelo de sociedade perfeita tem o seu preço. Além da ocupação pelo trabalho e lazer no mundo material, a necessidade humana de transcendência e introspecção era satisfeita com uma droga halucinogénica, o soma, um meio de auto-medicação controlado pelo Estado e que providenciava o conforto na face do stress, eliminando a necessidade de alienações pessoais ao interesse da comunidade. Uma sociedade entretida é uma sociedade submissa. Não havia livre arbítrio e eram impressas nas crianças uma série de memórias e crenças que, embora os julgassem seus, não eram mais do que frases repetidas vezes sem conta durante o seu sono. “Brave New World” é uma obra polémica e que foi alvo de grande crítica no seu tempo, chegando a ser mesmo banida em alguns países. A sociedade que ilustra baseia-se nos princípios do Fordismo levados ao extremo: produção em massa, padronização, previsibilidade e consumo. Portanto, não muito diferente do mundo em que vivemos hoje.

Este pequeno resumo não faz justiça à obra de Huxley e aconselho a todos a sua leitura. É provavelmente o meu livro favorito e contém uma mensagem forte que se enquadra perfeitamente no mundo actual. Não é a sociedade de consumo que critico, nem tão pouco o poder da ciência. Todo o conhecimento é inofensivo, quem o usa é que não. Deixo estes assuntos para outro fórum mas friso que defendo com fervor o avanço científico como o motor do desenvolvimento humano. Infelizmente, muitas vezes a ciência é manipulada e chega distorcida ao público que deveria servir. As pessoas absorvem muita da desinformação sem questionar a sua veracidade e validade. Mas, embora vivendo num mundo manipulativo, a informação “em bruto” está ao dispor de todos os que a procurem se forem instruídos para a sua interpretação. Quanto digo “em bruto”, refiro-me aos dados que resultam dos inúmeros estudos levados a cabo pela comunidade científica, louvável e incansável na sua demanda para um conhecimento do mundo cada vez mais profundo. É com muito orgulho que me incluo neste grupo mas renego e desprezo a forma como muitas vezes a informação é manipulada para satisfazer um determinado interesse ou preconceito social. Só somos livres quando pensamos por nós próprios e, para tal, é preciso ir mais fundo e não ficar satisfeito com a superficialidade do que nos chega através dos media e entidades oficiais, que em certa medida são o soma dos dias que correm.

Mais do que gordo, o mundo está doente. A obesidade aumenta a um ritmo alarmante, acompanhada uma por série de disfunções metabólicas e cancro que resultam da decadência dos comportamentos humanos. As últimas projecções da Organização Mundial de Saúde datam de 2008 e apontam para 1.5 biliões de adultos com peso em excesso, dos quais 500 milhões são obesos. Mais de 40 milhões de crianças com menos de 5 anos tinham peso excessivo em 2010 e o que se julgava um problema dos países desenvolvidos é hoje uma epidemia global. Na Europa, a prevalência da obesidade mais que triplicou nos últimos 30 anos. Metade dos adultos e uma em cada cinco crianças têm peso a mais. A tendência crescente é particularmente alarmante nos mais jovens porque indiciam um agravamento futuro do problema. A taxa anual de aumento da prevalência da obesidade neste grupo etário é hoje 10 vezes superior à verificada em 1970. As últimas estatísticas para Portugal revelam que o excesso de peso afecta perto de 60% da população e sem indícios de abrandar. Mas tão ou mais importante que a obesidade, são as co-morbilidades que a ela se associam, como a diabetes e doenças cardiovasculares. Em 2007, mais de 240 milhões de pessoas no mundo tinham diabetes e estima-se um aumento em 60% até 2025, com especial impacto nos países mais pobres. As doenças cardiovasculares são a primeira causa de morte no mundo, responsáveis por 30% dos óbitos registados. Em 2004 elas foram causa de 17.1 milhões de mortes e as projecções apontam para 23.6 milhões em 2030, com um aumento desproporcionado nos países em vias de desenvolvimento. Infelizmente, a tendência decrescente que se tem verificado nos países ricos não se deve a uma menor incidência mas sim ao aumento da esperança de vida com novos e melhores tratamentos e meios de diagnóstico cada vez mais precoces e eficazes.

Mas a culpa não é da ciência, embora muitos acusem o avanço tecnológico do estado actual da saúde humana. Pelo contrário, ela ajuda-nos a entender a razão da tendência global crescente das doenças metabólicas crónicas. Qualquer inovação resulta de uma necessidade de adaptação e não tem um desígnio ou valor intrínseco. Não pretende ser boa ou má. A gravidade do problema é assumida por todos e não são poucos os programas oficiais para o combate à obesidade que se centram, e bem, na dieta. O sucesso é que é pouco ou nenhum. O que me deixa perplexo são algumas recomendações assumidas por todos como dogmas e que se baseiam em… nada. Não existe ciência que as fundamente e, em muitos casos, existem até dados que as refutam. Em que se baseia uma dieta composta por 60% de hidratos de carbono, maioritariamente provenientes de cereais, 30% de gordura e 10% de proteína? Na história evolutiva humana não existe qualquer justificação para estas proporções, nem tão pouco numa perspectiva metabólica à luz do conhecimento actual. O consumo de gorduras no Ocidente até tem diminuído nas últimas décadas, mas a incidência de doenças crónicas não deixou de aumentar. Essas gorduras foram substituídas por hidratos de carbono refinados, processados e mesmo integrais. Ao mesmo tempo, enquanto que antes as gorduras consumidas faziam parte dos alimentos, hoje a maior fatia é adicionada como ingrediente na confecção de alimentos altamente processados. Muito se tem falado sobre os malefícios da gordura animal, saturada, para a saúde, mas numa dieta ocidental típica, mais de 80% das fontes de gordura adicionada são vegetais, o que não se traduz numa redução na incidência de disfunções metabólicas. O consumo de carnes brancas, magras, aumentou imenso em relação às vermelhas mas onde está a redução na incidência de doenças do foro cardiovascular? O leite e iogurtes magros também têm ganho adeptos e são altamente recomendados, mas mais uma vez os resultados são nulos a nível global. A ideia de que os lacticínios são essenciais é no mínimo ridícula. Antes da domesticação dos animais a importância dos lácteos na dieta adulta era residual já que dificilmente se iam deixar ordenhar no estado selvagem. Na verdade, o Neolítico é um marco histórico para a degradação da saúde humana, comprovado por vários dados antropométricos do registo fóssil e que acompanha um domínio crescente dos hidratos de carbono, cada vez mais modificados, na dieta. Estes são temas para ir debatendo no blog e não me vou aqui alongar e esgotar assuntos que podem dar azo a discussões ricas.

E onde a ciência entra em tudo isto? É curioso que os dados a provar uma degradação da dieta tradicional se acumulem sem que lhes seja prestada a devida atenção. O contributo da carga glicémica da dieta para as doenças cardiovasculares está mais do que descrito mas mesmo assim é muitas vezes esquecido nas revisões e nas recomendações oficiais que entram nos programas de combate à doença. Por outro lado, as gorduras têm sido diabolizadas quando na verdade os dados que suportam um papel patológico directo e isolado sejam no mínimo ténues. Muitos outros exemplos poderiam ser dados, e serão em vários artigos do blog, mas penso ter ficado claro que o problema não está na ciência, mas sim na interpretação que fazem dela.

Uma coisa em que o Homem se destaca dos outros animais é a capacidade de moldar o mundo à sua medida. A meu ver, é a característica que melhor define a nossa espécie e a razão de sermos o que somos hoje, tanto para o bom como para o mau. Nós não queremos mudar face à adversidade e tudo fazemos para alterar o que não nos é favorável. Isto também se aplica à tecnologia dos alimentos e produção em massa. Não só foram criados alimentos com pouco valor nutritivo mas alto teor calórico, como também foram inventadas formas de modificar os alimentos mais apelativos de forma a minimizar o impacto percepcionado na saúde. Assim surgem os produtos light, que não promovem as boas práticas alimentares mas sim uma cultura de facilitismo e resignação. Adaptamos a dieta de forma a não termos de mudar os nossos hábitos e preferências. Conscientes da necessidade, enganamo-nos a nós próprios com produtos sintéticos mas que em nada têm ajudado para combater a epidemia de obesidade e doenças crónicas.

Mas existem alguns movimentos que conservam boas práticas nutricionais e entre eles está o culturismo na sua corrente original. Felizmente que o descobri a tempo de solucionar uma adolescência de obesidade que me marcou profundamente. Mais do que a perder peso, quase 50kg, as bases nutricionais do culturismo possibilitaram-me manter um peso saudável sem deitas yo-yo e com o mínimo esforço. Sim… isto é possível. Embora o meu gosto por este estilo de vida seja imenso, a minha paixão sempre residiu na ciência. Felizmente são duas faces da mesma moeda. A ciência tem vindo a comprovar cada vez mais os princípios nutricionais básicos do culturismo, que se afastam da dieta tradicional e se identificam com práticas ancestrais mais sustentadas. Estes princípios surgem de um conhecimento empírico sem igual da fisiologia humana, derivado da ambição em superar os limites do corpo. Para tal, é preciso conhecê-la profundamente. Como considero que estes princípios podem ajudar e esclarecer qualquer um tanto quando me ajudaram a mim, assumo com este blogue o objectivo de partilhar o pouco que sei e as minhas experiências com todos os que possam beneficiar deles ou achem que podem de alguma forma sair enriquecidos. Não pretendo converter ninguém e para missionário tenho pouco jeito. Muito raramente me vão ver sugerir esta ou aquela prática e sou uma pessoa moderada por natureza. Se existem duas posições extremadas, acredito à partida que a verdade está algures no meio. A minha intenção é divulgar factos que permitam a cada um fazer as suas próprias considerações de forma consciente e fundamentada. Não pretendo que concordem com tudo o que digo e até dou privilégio à dúvida, um exercício mental muitas vezes esquecido mas essencial para vermos o mundo pelos nossos próprios olhos. Espero que este blogue seja do seu agrado e que participe activamente deixando as suas opiniões e recomendando-o a quem possa tirar partido dele.

Sérgio Veloso 


16 comentários:

  1. Parabéns Sérgio,

    Este é talvez o melhor resumo crítico que li sobre Nutrição e Saúde Pública.

    Cumprimentos

    PB

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  2. Caro Sérgio,

    Procuro à bastante tempo alguem com conhecimentos cientificos sobre nutrição e suplementação. Depois de ler alguns dos teus artigos, confesso que fiquei fã da tua forma de escrita: extremamente leve e facil e ao mesmo tempo cientificamente fundamentada. Acredito que esta minha busca tenha encontrado alguem em quem confiar, pois acima de tudo, procuro na suplementação algo que me ajude a todos os níveis e não prejudique com os chamados "efeitos secundários". Acredita que vou ler todos os artigos que publicaste no blog com bastante interesse!

    Continua com o excelente trabalho e porque não publicares um livro onde possas resumir todos estes artigos e mais alguns? Sinceramente acho que falta um livro deste a desmistificar tudo o que existe relacionado com a suplementação e onde possas dar um contributo para um melhor uso dos suplementos por todos nós.

    Cumprimentos,
    RM

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    1. Muito obrigado por essas palavras.

      Já fui desafiado algumas vezes para escrever um livro, mas existe sempre o receio de que tanto tempo dedicado depois se revele um fracasso. No entanto é algo que não ponho de parte.

      Cumpriemntos

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    2. Tanto tempo dedicado? Repara, esse tempo dedicado já tu deste com todos os contributos no blog e no forum! Com tantos assuntos já escritos, apenas terias o trabalho de os organizares por temas e acrescentares mais uns quantos para compor o ramalhete! Tenho a certeza que em termos de venda, se tiver leve e bem estruturado, vai ser um sucesso! Acredita que tens potencial para criar a "BIBLIA DOS SUPLEMENTOS DESMISTIFICADA"... e para o teu CV seria uma grande mais valia! Vês, já te ajudei no nome e tudo... eheheh

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  3. Caro Sérgio fiquei agradavelmente surpreendida ao descobrir o seu blogue. Eu própria tenho um blogue "Diário de uma Dietista" e ao descobrir o seu decidi pela 1ª vez adicionar a aplicação "A minha lista de blogues".

    Obrigada por toda a partilha de conhecimento e desconstrução de ideias que faz neste admirável trabalho.

    Por favor disponha.

    Atentamente,

    Dietista Catarina Félix e Cachão

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  4. Melhor blog que já li!!!!!!
    Podias criar um livro pdf e vendias separadamente, ou publicavas no scribd e ficavam associados á conta para evitar anti piratarias!!! E apenas lucravas com que vendias :D

    EU COMPRAVA O LIVROO!!!!

    Eu não conhecia este blog, apenas vi um post de GRANDE FISICULTURISTA português chamado Carlos Rebolo que publicou um artigo deste website!!

    És o melhor!

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    1. Muito obrigado! :)

      Quanto ao livro, é algo que gostaria imenso de fazer. Digamos que é um projecto de "realização pessoal". Preciso de me sentar e definir uma estratégia.

      Cumps

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  5. O ano passado, Gary Taubes e outros, mudaram a minha vida, sigo o princípio LCHF, seguiram-se meses de leitura, podcasts, e por aí fora. E agora encontro finalmente algo em Portugal, com que me identifico. Continua o bom trabalho, e a passar a palavra. E já agora porque não um podcast?

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  6. Descobri este bloque e... não consigo parar de ler. Muito bom! É bom receber tanta informação de forma gratuita, credível (cada vez mais difícil) e constante.

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  7. Sabes Fat New World quer dizer "Novo Mundo Gordo" ou "Gordo Novo Mundo", certo?

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  8. Sérgio :) adoro o seu blog! Realmente ė uma pessoa muito inteligente. Vê mais além...
    Há tanta gente que deveria ler isto... pena que a maior parte das pessoas nem entende o que está aqui escrito. (Estou a pensar nos meus doentes obesos diabeticos e hipertensos q vivem com pena de si proprios)
    Depois de ler alguns dos seus artigos senti-me muito melhor e feliz porque tinha acabado de comer um chocolate de 200gramas apos um bom almoço e estava a sentir-me muito culpada porque passei a semana a fazer dieta e exercicio (nada de extremista mas sentia-me bem por ter conseguido) e hoje tinha simplesmente estragado tudo, mas como por milagre encontrei o seu artigo q dizia q comer muito uma vez por semana turbina o metabolismo e faz bem :) agora estou contente e pronta para me esfalfar toda outra vez no ginasio. Adoro-o e vou dizer a toda a gente :D

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  9. Parabéns Sérgio, continua o excelente trabalho.

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  10. Bom dia Sérgio, pode enviar-me o seu e-mail, sff? Gostava de lhe perguntar umas coisas.

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  11. Muitos parabéns! Uma escrita simples, agradável, directa e baseada num enorme conhecimento! Fiquei fã!!

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